GM Entrevista: diretor de “InDUBtável 2 – Reggae Documento” fala sobre sequência documental e estreia no Brasil

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Com estreia prevista para setembro em São Paulo e passagem por festivais internacionais, InDUBtável 2 – Reggae Documento é o novo capítulo de um dos importantes projetos de registro sobre a cultura sound system no Brasil. O filme, dirigido e montado por William Sernagiotto, mergulha em um panorama profundo e inédito do reggae, dub e ska a partir da cena da Grande São Paulo, conectando-a com circuitos internacionais por meio de registros feitos no Brasil, França, Espanha e Inglaterra entre 2016 e 2019.

Tivemos uma conversa com o diretor, que compartilha os bastidores da produção, suas escolhas estéticas e políticas, e sua visão sobre os rumos da cena no país.


“O que mais me motivou foi a efervescência musical da cena underground”

O projeto nasceu ainda nos anos 2000, quando William começou a registrar o fervor cultural que agitava a cena alternativa paulistana. “A ideia inicial era fazer um documentário sobre hardcore”, conta. “Mas eu estava ouvindo muito reggae na época, por influência de pessoas como DJ Chars, Planeta Dub e Otávio Rodrigues (Dr. Reggae), que foram me apresentando outras sonoridades”, conta.

Com um olhar aguçado e histórico de pesquisador musical desde os tempos das fitas K7, William acompanhou de perto e registrou os primeiros passos dos sound systems no país. “Era tudo muito novo, inclusive pra mim”, diz. O resultado virou uma versão “demo” com registros entre 2003 e 2009. Confira a seguir!

 

GROOVIN MOOD: O que te motivou a começar a registrar o cenário reggae e sound system ainda em 2003? Você já imaginava que esse material ganharia uma versão oficial tantos anos depois?

WILLIAM SERNAGIOTTO: Com base nos mais de 20 anos que atuo no audiovisual, eu já tinha plena consciência das dificuldades para lançar algo de forma independente no Brasil. Mas confesso que não imaginava que demoraria tanto. Perdi as contas de quantas vezes pensei em desistir, lançar só no YouTube mesmo e partir pra outra empreitada mais vantajosa ou lucrativa.

O que mais me motivou a registrar foi a efervescência e a diversidade musical da cena underground em SP, no início dos anos 2000. A ideia inicial era fazer um documentário sobre Hardcore, mas eu estava ouvindo muito reggae na época — principalmente por influência de pessoas como DJ Chars, Planeta Dub, Otávio Rodrigues (Dr.  reggae/Bumba Beat), que foram me apresentando outros expoentes do gênero, como Victor Rice, 7Velas, Nélson Meireles (produtor dos dois primeiros discos do Cidade Negra, baixista do Rappa e membro fundador do Digital Dubs Sound System – RJ), entre outros.

A partir daí, o foco do projeto rapidamente mudou para o registro de bandas de ska, reggae e, depois, para os primeiros anos dos sound systems por aqui. Era tudo muito novo para a maioria, inclusive para mim. Eu já era um pesquisador musical dedicado, bem antes da internet, gravava muitas fitas K7 no fim dos anos 80 e início dos 90, mas na época os ritmos eram outros: thrash metal, hardcore, punk e ska. Nos anos 2000, com o acesso à internet somado à ebulição da cena local, surgiu essa demanda e uma busca incessante mais voltada ao reggae, dub e suas inúmeras vertentes.

 

Otávio Rodrigues (Dr. Reggae), jornalista e pesquisador  – Cena de InDUBtável 2

 

GM: A versão “demo” foi lançada com imagens de 2003 a 2009. Já a versão oficial se estende até mais recentemente. Como você vê a evolução do cenário reggae e sound system nesses anos de registros?

WS: Ao mesmo tempo que se popularizou, a cena sound system foi muito impactada pela pandemia e tudo que veio depois. É muito difícil se sustentar fazendo reggae no Brasil — e isso influencia diretamente na qualidade do que é produzido por aqui. Acredito que ainda falta valorizarmos mais as produções autorais, gravações de dubplates
com artistas locais, para movimentar e profissionalizar a cena.

Criou-se uma mentalidade errônea e distorcida da “gratuidade obrigatória”, que permeia a maioria dos bailes e festas
de reggae em SP. Essa postura “0800”, tanto dos realizadores quanto do público, se mostrou nociva e insustentável para a consolidação de uma cena forte e duradoura.

GM: O filme atual foi rodado em quatro países e traz mais de 40 artistas. Como foi construir uma narrativa que conecta tantos territórios, idiomas, sonoridades e histórias de forma coesa?

WS: Para ser sincero, foi até tranquilo (modéstia à parte). Foquei a narrativa na música — no reggae, dub e sound system. Assuntos que destoavam muito disso ou que não funcionavam no roteiro, descartei. Uma vez definido esse rumo, ficou mais viável desenvolver os temas. Não podemos ter apego ao material. O que guia a construção da narrativa é o que está impresso na tela, o que foi de fato filmado — e não aquilo que idealizamos.

 

Alpha Steppa, produtor inglês – Cena de InDUBtável 2

 

GM: Quais foram os critérios para escolher os personagens e festivais retratados na Parte 2?

WS: Ainda na pré-produção, cogitamos incluir 20 artistas no filme, pois sabíamos que esses estariam tanto no festival IDG (Espanha) quanto no UNOD (UK). Mas, na prática, quase não conseguimos gravar com nenhum deles.
A Parte 2 já começou do exterior para cá, com Sérgio, Melissa e Renan (Mr. Ites) gravando nos festivais de fora, e depois comigo, filmando aqui no Brasil durante um ano. Desde o início, esse capítulo já tinha a pretensão de ser uma obra de alcance mundial, dado o caráter universal do reggae. OUTernationALL e não INternational, sabe?

Quanto ao casting, os critérios foram simples: quem respondia e demonstrava interesse em participar, eu agendava e gravava. Quem não respondia, dificultava ou proibia gravações — principalmente com artistas internacionais —, eu descartava. A cena local é cheia de conflitos e divisões banais. No fechamento do elenco não teve jabá, bairrismo ou clubismo. Rough and tough.

GM: De que forma o filme reforça o papel de São Paulo — e especialmente do ABC — na consolidação do reggae e da cultura sound system no Brasil?

WS: Na época das gravações, muitos artistas internacionais vinham tocar em SP — foi isso que motivou os registros naquele momento. Hoje, a cena encolheu bastante, num efeito sanfona. O que é comum no underground: vai e volta conforme o contexto. O filme busca desmistificar termos e gírias específicos da cultura reggae (como dubplate,
riddim etc.), tornando tudo mais acessível. Também rompe com o estereótipo do “regueiro maconheiro, desleixado e alienado”, mostrando que o reggae tem aspectos libertários, coletivos e internacionalistas. É uma música que rompe fronteiras e barreiras impostas pelo status quo.

Mas, pra consolidar qualquer cultura underground no Brasil hoje, seria preciso um milagre — coisa improvável. Ninguém vai “salvar” o reggae nacional. Os maiores interessados na evolução da cena devem ser os próprios envolvidos.

 

Sound system na rua – Cena de InDUBtável 2

 

GM: Você também é editor e produtor do filme. Como essas diferentes funções influenciam na forma como você constrói a narrativa e as escolhas estéticas do documentário?

WS: Na decupagem e montagem, é difícil desapegar de material que foi difícil de captar. Mas com o argumento claro, tudo flui melhor: narrativa, ritmo, enredo, atmosfera. O filme faz autocrítica em vários momentos. Não tem pretensão de defender nenhuma teoria ou tese polêmica. Prefiro abordar os temas livremente, deixando o público tirar suas próprias conclusões.

As escolhas estéticas e a curadoria musical vieram de quem pesquisa reggae há mais de 20 anos. Foi feito por quem entende, no mínimo, do riscado (modéstia – take 2). Tenho um acervo de mais de 20 mil álbuns em MP3. Como diz Yellow P: “…O reggae é infinito…”.

GM: A parte 2 está sendo lançada em um momento em que o reggae brasileiro vive uma efervescência criativa, mas ainda carece de documentação. Como você enxerga o papel do cinema dentro desse cenário?

WS: Eu discordo dessa ideia de efervescência criativa no reggae nacional, como já disse. Mas quem sabe o filme atraia novos públicos para o estilo. O reggae ainda é tratado como tabu por aqui, talvez pelas disputas internas da cena. Mas é um gênero riquíssimo, que ainda carece de registros audiovisuais expressivos. Espero ajudar a preencher essa lacuna com o InDUBtável. Se eu conseguir desagradar os ortodoxos, já é um ótimo sinal.

GM: No total, foram quase duas décadas registrando esse universo entre as duas partes. Como foi o processo técnico e emocional de lidar com essa gama de materiais?

WS: Foi um processo paradoxal. Pensei em desistir várias vezes, quase deletei tudo em momentos de crise. Ainda bem que a emoção ficou nas músicas e falas dos entrevistados. Durante a montagem, é preciso ser racional e sistemático. Não há espaço para ilações. Como diria o mestre Umberto Martins: “Cinema são 24 decisões por segundo”.

 

Arcanjo Ras, referência no dancehall nacional – Cena de InDUBtável 2

 

GM: Quais foram os momentos mais marcantes — ou mais desafiadores — durante as filmagens aqui e no exterior?

WS: Foram muitos perrengues típicos de produção “guerrilha”. No exterior, Sérgio, Melissa e Renan seguraram as pontas. Aqui, teve câmera que queimou, HD que pifou, 1TB de material enviado pela nuvem por incompatibilidade entre sistemas. A curadoria musical nos sounds foi desafiadora: esperar aquele “big tune” tocar às 5h da manhã era exaustivo. Fazer esse filme na raça foi um desafio imenso.

GM: O filme já foi selecionado para festivais internacionais e possui CPB da Ancine. O que você espera para a trajetória de InDUBtável 2 a partir de agora? Quais são os planos para lançamentos presenciais e/ou digitais no Brasil? Qual a previsão de exibição pública ou em plataformas?

WS: A estreia está prevista para setembro nos cinemas de SP, e depois no streaming da SPCine por um ano.
É um projeto que abre margem para outros formatos. Talvez venha aí um capítulo 3, com foco em vertentes como dubstep, grime, jungle e drum’n’bass. Curiosamente, tivemos mais reconhecimento fora do que aqui — subvertendo o “complexo de vira-lata” tupiniquim.

GM: Que conselho você daria para jovens realizadores que querem documentar suas próprias culturas locais ou cenas musicais independentes?

WS: Façam vocês mesmos. Criem relações horizontais, baseadas em apoio mútuo, autogestão e ação direta. Não esperem instituição nenhuma, nem patrocínio ou aval de ninguém pra começar a realizar seus projetos. DIY — Do It Yourself. Ensaio e pesquisa são importantes, claro. Mas a prática, a abordagem empírica, é onde mora o aprendizado real. É na ação que se constrói técnica, linguagem e visão. Almejem o impossível — porque é assim que se conquista o concreto.

 

 

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