Quando o grave vira escola: oficina de Sound System em Paulista-PE forma novos talentos e fortalece a juventude periférica

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Em Paulista, município no estado de Pernambuco, o grave do sistema de som cumpre função educativa. A “Oficina Sound System: O grave das ruas gerando novos talentos”, realizada na sede do Coletivo Kardume, na Praia de Nossa Senhora do Ó, mostrou como a cultura que nasceu na Jamaica segue sendo uma potente ferramenta de formação social e técnica no Brasil.

Voltada para jovens negros, LGBTQIA+ e de periferia entre 15 e 29 anos, a iniciativa foi além de ensinar montagem, operação e lógica de um sistema de som. O projeto conectou história, tecnologia e memória cultural, reforçando o sound system como uma pedagogia das ruas, um espaço de futuro para quem, muitas vezes, cresce limitado pelas oportunidades.

A condução ficou nas mãos de Ewerson Selector, figura central do sound system pernambucano e responsável pela criação do Vietcong Promotion, sistema de som pioneiro no estado. Ewerson cresceu em Pau Amarelo, inspirado pelo reggae, pela pesquisa e pela vontade de construir algo próprio.

Ele relembra:

“Na minha adolescência, tive um contato profundo com o reggae. Fui pesquisar mais sobre a cultura e, assim, descobri esse universo de caixas e amplificadores da Jamaica. Aquilo me fisgou. Decidi ir atrás: fiz minhas primeiras caixas acústicas de forma reciclada, a partir de um armário de cozinha que minha vizinha descartou na rua. A partir disso, nasceu o primeiro sistema de som de Pernambuco. A música me deu um norte, um caminho ligado à cultura, fortaleceu minha autoestima como jovem preto e periférico e me livrou de muitas armadilhas às quais os nossos jovens estão expostos hoje em dia.”

Quase duas décadas depois, o sistema Vietcong mantém a estética dos primeiros sounds jamaicanos, com alto-falantes inteiramente recuperados de sucata eletrônica. uma escolha que combina consciência ambiental, tradição e ancestralidade.

Sound System como ferramenta de pertencimento

Para Ewerson, direcionar a oficina aos jovens periféricos e LGBTQIA+ é um compromisso político e cultural.

“A cultura Sound System, em sua origem, é uma ferramenta de resistência e voz. Para os jovens de hoje, a arte e a técnica do som podem ser a porta de saída de muitas realidades difíceis. Realizar essa oficina, ao lado do Coletivo Kardume, foi, para mim, devolver o que recebi na adolescência: um caminho cheio de possibilidades e um futuro ligado à arte e à cultura. Não estamos só ensinando a operar som; estamos mostrando que existe um futuro ligado à técnica e à arte, onde eles são os protagonistas”.

O MC e poeta Rico Du Janga, aluno da oficina, avaliou que a troca ampliou sua visão artística. “Achei de extrema  importância a realização dessa oficina pelo sistema de som Vietcong não só pela didática de Ewerson, em passar anos de conhecimento de forma prática e de fácil entendimento, pelos conteúdos trazidos, mas também pelo  fortalecimento da cultural local, onde o próprio Vietcong nasceu, que mostrou pra juventude uma história e uma cultura que nasceu de outro lugar mas no final das contas também nos pertence”.

A DJ e seletora Pérola também destacou o papel da representatividade. “Agregou bastante, tanto na parte de conhecimento, como na parte de poder entender que como mulher negra posso fazer com que isso aconteça também, é importante ter referências como Ewerson, que traz a cultura sound system há tantos anos. Hoje em dia penso que posso organizar um baile com sound system, DJ’s dançarinos e pessoas das comunidades locais.”

 

Política pública e continuidade do projeto

A produtora Iolanda Dayo reforça que o sucesso da oficina está diretamente ligado ao apoio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) de Paulista, que garantiu a realização das aulas e reconheceu o valor formativo e cultural do projeto. A alta procura e a transformação percebida nos participantes motivaram o Coletivo Kardume e Ewerson Selector a planejar novas edições.

A expectativa é que a oficina se torne um programa contínuo, ampliando o acesso ao conhecimento técnico e fortalecendo a cena local. A meta é clara: manter o grave ecoando como ferramenta de autonomia, consciência e oportunidade.

Em Paulista, o sound system continua sendo mais que música. É educação, memória e construção de futuro, sempre a partir das ruas, para que mais jovens possam descobrir que o grave também ensina.

 

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