Sound Camp Internacional: festival chileno chega à 3ª edição e reflete a expansão dos festivais de sound system na América Latina

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Foto: Paula Letelier

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Ano após ano, a Europa segue consolidada como a meca global dos festivais de dub, sound system e reggae, atraindo milhares de pessoas de todas as partes do mundo. Felizmente, esse cenário vem se expandindo cada vez mais deste lado do oceano. Em toda a América do Sul, esse crescimento também se faz sentir, revelando ao mundo a dimensão da nossa potência cultural. No Brasil, grandes festivais — sejam eles dedicados ao reggae ou não — já começam a abrir espaços voltados à cultura sound system, enquanto a própria cena impulsiona, ano após ano, o surgimento de novos festivais independentes dedicados a essa linguagem. E isso ocorre também nos países vizinhos.

Com apenas quatro anos de existência, o Anbessa Hi Fi , da cidade de Santiago, já se consolidou como um dos projetos mais relevantes da cultura sound system no Chile. Além de um sistema de som artesanal, o coletivo, formado por Mister Dubman, Sammy Dread e HerBoriss atua como plataforma cultural, espaço de encontro e ferramenta de comunicação, conectando reggae, território e comunidade em diferentes regiões do país.

A história do Anbessa nasce de uma relação de longa data com o reggae chileno. Antes mesmo do sound system ganhar forma, seus fundadores já circulavam pela cena por meio de bandas, rádio e produções audiovisuais. A decisão de criar um sistema próprio veio de um período de pausa criativa, mas também de amadurecimento coletivo, como explica César “Mr. Dubman” Sanhueza, um dos fundadores do projeto. “Com o Sammy Dread – outro fundador do projeto – estivemos vários anos sem fazer música diretamente, mas sempre mantivemos a amizade e a conexão com o reggae. Em 2018 sentimos a necessidade de levantar um projeto próprio, que realmente relevasse a música reggae e toda a cultura que vem junto com ela. O sound system apareceu como esse caminho”, explica.

Foto: Paula Letelier

Em um país onde a cena reggae é concentrada e relativamente pequena, especialmente em Santiago, essa vivência acumulada foi fundamental para compreender o sound system como algo que vai além do som. Ele se transforma em linguagem, ponto de convergência e construção coletiva. “O Chile é um país pequeno e a cena reggae é ainda menor. Existe uma comunidade que se conhece, que se encontra nos eventos. Nossa experiência ajudou a ler bem esse cenário e, a partir daí, criar um espaço real de encontro”, afirma.

Essa dimensão comunitária se amplia quando o sistema ocupa o espaço público. Ao longo dos últimos anos, o Anbessa Hi Fi levou seu som a praças, centros culturais e espaços abertos em diferentes comunas e regiões do Chile.


“Nos eventos callejeros chegam os de sempre, mas também aparece muita gente nova, que não conhece o conceito do sound system. As pessoas se surpreendem ao ver o stack, sentir o bass, observar os discos girando. Crianças, adultos e idosos se aproximam, e surgem conversas muito bonitas”, relata Dubman. Em contraste, ele observa que os espaços fechados oferecem outra experiência: “O clube ou o salão é algo mais íntimo, quase meditativo, onde cada pessoa sente a vibração do som a partir do seu próprio momento”.

Foi dessa vontade de convivência, natureza e música que nasceu o festival Sound Camp, há três anos. A ideia surgiu de maneira despretensiosa, em uma conversa entre amigos, mas rapidamente ganhou outra dimensão. “Foi quase como uma brincadeira: ‘por que não fazer um dia de sound com piscina?’. Encontramos a Hacienda Licán, no Cajón del Maipo (um cânion localizado na porção sudeste andina da Região Metropolitana de Santiago), e fomos recebidos de braços abertos. O que era algo improvisado cresceu muito rápido, porque percebemos que havia muita gente querendo ir para a montanha e viver essa experiência”, relembra.

Foto: Paula Letelier

Em sua 3ªedição, festival se firma no calendário global de festivais de cultura sound system

Hoje, o Sound Camp reúne centenas de pessoas a cada edição e se firma como um espaço de celebração, aprendizado e intercâmbio cultural. A curadoria musical reflete a visão do Anbessa Hi Fi sobre o sound system como ferramenta de resistência cultural, mantendo viva a essência jamaicana.

“Nossa visão do sound system sempre foi a partir da resistência cultural. Ele nasce como uma rádio popular, para quem não podia ir aos clubes, e isso segue muito presente para nós”, explica Dubman. Ao mesmo tempo, a música carrega mensagem e consciência, sem abrir mão da alegria: “Existe uma missão de comunicar, de manter os temas que nos atravessam em evidência, mas também há espaço para a festa, pois a música negra sempre carrega esse elemento”.

Foto: Paula Letelier

Outro pilar central do festival é a feira de empreendedores locais, que reforça o caráter comunitário e autogestionado do encontro. Artesãos, criadores e terapeutas encontram no evento um espaço real de circulação e geração de renda. “Sempre buscamos dar espaço para artesãos e criadores mostrarem seus trabalhos. No Sound Camp, por ser um evento maior, essas pessoas conseguem vender, gerar recursos e se sentir parte do processo”, diz Dubman.

Além da feira, o evento também integra práticas de bem-estar: “É um espaço amplo, onde as pessoas circulam e mudam de ambiente. Já tivemos yoga, massagens, óleos essenciais, e este ano queremos ampliar ainda mais essas experiências”.

Para a edição de 2026, o Sound Camp dá um passo decisivo ao se tornar oficialmente internacional, com a presença de sistemas e representantes do Brasil, Argentina e Peru. A iniciativa fortalece uma rede latino-americana construída de forma orgânica, a partir de trocas e afinidades culturais.

Somos um sound system autogestionado, como a maioria. Não temos grandes auspícios, mas conseguimos articular contatos e vontades para cumprir um sonho: transformar o Sound Camp em um ponto de encontro latino-americano da cultura sound system”, afirma.

Foto: Paula Letelier

Essa internacionalização também se conecta à identidade do sound system na região. Para Dubman, a experiência latino-americana carrega marcas próprias. “O sound system sempre amplifica os problemas locais. Na América Latina isso tem muito a ver com a falta de espaços para a cultura popular, por isso cada oportunidade de ocupar e se expressar é tão importante”, reflete.

O futuro aponta para a consolidação do Sound Camp como um dos encontros essenciais do verão latino-americano, capaz de reunir cada vez mais países, sistemas e nomes relevantes da cena mundial.

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