10 músicas para conhecer o reggae japonês

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Quando o reggae começou a ganhar espaço no imaginário popular japonês, ele não chegou exatamente como uma cópia direta do som jamaicano. O que se formou ali, sobretudo entre meados dos anos 1970 e início dos 1980, foi uma leitura própria: um reggae filtrado pelo city pop, pela new wave britânica e por uma indústria musical em plena expansão.

A passagem de Bob Marley & The Wailers pelo Japão em 1979 foi um marco simbólico, bem como a visita de grupos como The Pioneers e The Cimarons, que excursionaram pelo país em 1975 e encontraram um público receptivo, já familiarizado pelo impacto global de The Harder They Come, de Jimmy Cliff. Mas não foi só isso.

Artistas e bandas ligadas ao circuito de música ao vivo de Tóquio, muitas vezes influenciados por discos que chegavam por vias como as bases militares dos Estados Unidos, já experimentavam grooves jamaicanos em suas produções desde a netade da década de 1970. O reggae se infiltrava na cultura japonesa de dentro para fora, e não somente como reflexo de uma “febre” mundial.

O resultado foi um som mais suave e acessível, fundamental para ampliar o alcance do gênero no Japão. Em vez de reproduzir fielmente o estilo jamaicano, muitos artistas se inspiraram em referências como The Police e UB40, encontrando um caminho possível para incorporar o reggae à estética pop japonesa da época.

A primeira fase do reggae japonês não se conectou especificamente à cena dancehall que se consolidaria anos depois, nem ao circuito de sound systems que tornaria o país uma potência global no gênero. Trata-se, antes, de um ponto de entrada: canções que ajudaram a apresentar o reggae ao grande público japonês e abriram caminho para uma relação profunda e duradoura entre Japão e Jamaica.

Os sons a seguir podem te guiar em um mergulho inicial no J-Reggae, com clássicos mais antigos e músicas mais recentes — um convite para entender como o reggae foi e segue sendo reinterpretado no Japão e transformado em algo singular, híbrido e surpreendente.

Depois, acessa aqui nesse link nossa playlist JAPANESE REGGAE no YouTube, que tem mais faixas pra vocês ouvir!


Masahito “Pecker” Hashida | Kylyn

Um dos percussionistas/bateristas mais prolíficos desde os anos 1970, Pecker conheceu e conviveu com Bob Marley em Tóquio, em 1979, antes de levar um grupo de músicos japoneses — como Ryuichi Sakamoto, Minako Yoshida e Shigeru Mukai — para os estúdios Tuff Gong e Channel One, na Jamaica. Lá, gravaram dois álbuns de reggae japonês: Pecker Power (1980) e Instant Rasta (1981) – álbum do qual “Kylyn” faz parte, ao lado de nomes fundamentais do reggae como Sly & Robbie, Augustus Pablo e Marcia Griffiths. Pecker foi um dos primeiros músicos japoneses a gravar diretamente com artistas locais na Jamaica.


Miki Hirayama | Tsukikage No Nagisa

Nascida em Tóquio, Miki Hirayama ganhou destaque no início dos anos 1970 como cantora de kayōkyoku, gênero que serviu de base para o J-pop . A faixa vem de seu quinto álbum, Onigashima, produzido por Haruo Chikada. Canções como “Tsukikage No Nagisa” (“Sombra do luar na praia”) revelam o contraste entre o sublime e o kitsch, o que dá ao álbum um ar singular.


Marlene | Zanzibar Night

Nascida nas Filipinas, Marlene já era uma cantora talentosa quando foi levada a Tóquio por uma agência japonesa no fim dos anos 1970. Com pouco domínio do idioma, gravou seu álbum de estreia, Just Like First Love, ao lado do produtor Masanori Sasaji, ligado à cena new wave japonesa. Porém, a faixa Zanzibar Night faz parte de outro álbum, Déjà Vu, de 1983. O som sofisticado do Compass Point Studios (estúdio de gravação de Chris Blackwell, nas Bahamas), que influenciou o produtor, teve um impacto enorme na comunidade musical japonesa — e isso pode ser ouvido claramente em faixas como a “Zanzibar Night”, que evoca a atitude de Grace Jones.


Ego-Wrappin’ | A Love Song (feat. Determinations)

O terceiro álbum da dupla jazz-rock/pop Ego-Wrappin’, de Osaka, chamado Swing For Joy e lançado em 1999, traz a faixa ‘A Love Song’, com acompanhamento da veterana banda Determinations, também de Osaka. É um rocksteady lindo!


Izumi Kobayashi | Lazy Love

Lançado em 1981, Coconuts High, de Izumi ‘Mimi’ Kobayashi, é um álbum que transita por diversos gêneros latinos e caribenhos, incluindo calypso, salsa, samba e reggae, todos com um toque eletrônico e de sintetizadores. A faixa”Lazy Love” foi originalmente gravada pela banda de reggae belizenha Babylonian Warriors, pela qual Kobayashi se encantou após vê-los abrir um show do UB40 no Roxy, em Hollywood.


Lily | Tenki Ni Naare

Descoberta por uma gravadora enquanto cantava nas ruas de Shinjuku, Lily iniciou sua carreira profissional nos anos 1970 e lançou, ao longo dos anos, treze álbuns. Marcadas por seu estilo vocal bluesy, suas gravações mais bem-sucedidas carregam uma melancolia profunda. “Tenki Ni Naare” integra o álbum Auroila (1976), foi composta por Lily e produzida com um toque orquestral por Ryuichi Sakamoto.


Little Tempo | Munou No Hito

Essa é apenas uma das muitas ótimas músicas da banda japonesa de reggae/dub instrumental Little Tempo – que chegou a gravar uma faixa com Linton Kwesi Johnson, chamada “Night Song” (que você ouve na nossa playlist JAPANESE REGGAE no YouTube). O EP Congabongo, lançado em 2000, traz a belíssima Munou No Hito (originalmente, 無能の人), que no ano seguinte foi lançada no álbum Kedaco Sounds.


Denshi Lenzi | Tokyo Riddim Band

A Tokyo Riddim Band nasceu a partir da coletânea Tokyo Riddim 1976–1985, lançada pela Time Capsule em 2023. Suas interpretações únicas do reggae pop japonês dos anos 1970 e 1980 os levaram a esgotar shows como atração principal por toda Londres, além de recentemente abrirem apresentações do Kyoto Jazz Massive no The Jazz Cafe.

A banda é formada por Kay Suzuki, o boss da Time Capsule, e liderada pela lendária tecladista Izumi ‘Mimi’ Kobayashi (que aparece ali em cima na lista com a música “Lazy Love”). Denshi Lenzi é um cover da clássica versão reggae city pop de Miki Hirayama que faz parte da coletânea Tokyo Riddim 1976-1985, e traz inspiração direta na linha de baixo de Natural Mystic, de Bob Marley.


Asuka Ando | Konya Ga Tropical

Asuka Ando é uma estrela em ascensão da cena moderna do reggae/lovers rock japonês, e lançou vários singles de 7 polegadas e dois álbuns solo, além de ter participado de muitos outros projetos de reggae japonês nos últimos anos. “Konya Ga Tropical” é uma música deliciosa, dançante, influenciada pelo dancehall digital, e que foi lançada como single em 2016 – e conta com o dub também.


Yugo Taguchi | Moon Light Dancehall Night

Yugo Taguchi é um MC/singjay/seletor de reggae nascido em Yokohama e atualmente baseado em Berlim. Desde seus primórdios em Londres, em 2010, inspirado por lendas como Jah Shaka e os Twinkle Brothers, até suas aventuras na França, em 2015, partilhando vicências com artistas como Bigga Ranx (Telly) e Junior Roy, Ricky Sai Sai, Joseph Cotton, entre outros, além de conexões com o Brasil, a trajetória de Yugo tem sido uma fusão de diversas influências musicais, como é possível ouvir na ótima “Moon Light Dancehall Night”, lançada em 2024.


BÔNUS: Tokyo Riddim 1976-1985

O álbum Tokyo Riddim 1976–1985 faz parte da Nippon Series, da Time Capsule — uma série livre de compilações que explora diferentes cenas musicais do Japão entre as décadas de 1960 e 2010. A arte de capa é do artista japonês Noncheleee, radicado em Fukuoka, e presta homenagem à icônica estética dos álbuns de dancehall criados por Wilfred Limonious.

 

 

 

 

 

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