Dub Poetry: 11 artistas para conhecer mais sobre o gênero
Photo: Rob Verhorst/Redferns
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O dub poetry – ou poesia dub – é uma forma de poesia performática que surgiu na Jamaica na década de 1970, combinando ritmos reggae com letras com consciência política e social. O gênero se espalhou para o Reino Unido e outras partes do mundo, onde continuou a prosperar e evoluir.
Os dub poets costumam usar o patois e outros elementos da cultura jamaicana em suas obras. Sua poesia é geralmente apresentada com acompanhamento musical e pode incluir canto e outras técnicas vocais.
O termo “dub” vem da prática de “dubbing” na música reggae, que envolve manipular e remixar gravações para criar novas versões de músicas. Os poetas dub manipulam de forma semelhante a linguagem e os elementos culturais para criar sua forma única de poesia.
Mais do que um estilo literário, trata-se de uma prática cultural e política que valoriza a linguagem das ruas, desafia padrões acadêmicos e transforma a poesia em uma experiência coletiva, rítmica e engajada, mantendo sua força tanto na performance quanto no texto escrito.
Ao longo das décadas, diversos grandes dub poets despontaram dentro do estilo, criando conexões com diferentes sonoridades e projetos ao redor do mundo.
Aqui no Brasil, por exemplo, tivemos a participação do grande Linton Kwesi Johnson em um dos álbuns dos Paralamas do Sucesso.
A icônica canção “Navegar Impreciso”, que também conta com Tom Zé, faz parte do álbum “Severino” (1994), e critica o racismo e a xenofobia em Portugal, mostrando uma conexão musical e temática entre o experimentalismo brasileiro e a consciência social jamaicana.
Os jornalistas brasileiros Celso Borges e Otávio “Doctor Reggae” Rodrigues criaram, em 2004, o Poesia Dub, um espetáculo que vai além da leitura de poemas com trilha sonora, fundindo poesia falada, dub, reggae e expressões da cultura popular brasileira em uma linguagem cênica própria.
A artista paulista Carol Afreekana também ficou conhecida na cultura sound system pela sua atuação como dub poeta, tendo lançado um EP em 2017, Seso Wo Suban, baseado no gênero músico-literário. Esses são apenas alguns dos diversos exemplos de como a poesia dub também marca presença no nosso país.
11 Dub Poets para ouvir e conhecer
Entre os poetas do dub, destacamos 11 nomes essenciais para quem deseja ouvir e conhecer mais sobre o estilo.
Oku Onuora
Considerado o pai do termo dub poetry, cunhado em uma entrevista no final da década de 1970, Oku Onuora — nascido Orlando Wong — uniu spoken word a atmosferas profundas do dub para criar um dos gêneros mais politizados da cultura reggae.
Militante desde a juventude contra o racismo e a violência policial na Jamaica pós-colonial, foi preso em 1970 após uma ação armada com fins sociais e, durante o encarceramento, passou a escrever poesia como forma de resistência, apesar da repressão das autoridades.
Sua obra ganhou notoriedade com o livro Echo (1977) e com o álbum Reflection in Red on 56 Hope Road (1979), o primeiro LP de dub poetry da história. Ao longo da carreira, alternou discos fundamentais como Pressure Drop e Bus Out com teatro, performance e experimentações sonoras, consolidando uma produção marcada pela denúncia do racismo, pelo chamado à ação coletiva e pela expansão dos limites entre poesia, música e política.
Linton Kwesi Johnson
Linton Kwesi Johnson, nascido em 1952 na Jamaica e radicado em Londres desde a infância, é um dos principais nomes da dub poetry e uma voz central da literatura negra britânica.
Poeta, ativista e integrante do movimento Black Panther, sua obra é profundamente política e retrata a experiência afro-caribenha no Reino Unido, denunciando racismo, violência policial e injustiça social por meio do patois jamaicano e de uma forte musicalidade oral.
Desde os anos 1970, Johnson construiu uma trajetória que une poesia, reggae e militância, com livros e discos emblemáticos como Dread Beat An’ Blood e Inglan Is A Bitch, além de uma presença marcante em performances ao vivo. Reconhecido internacionalmente, foi o primeiro poeta negro vivo publicado pela coleção Penguin Classics, consolidando a ideia de que, para ele, escrever é um ato político e a poesia, uma arma cultural.
Benjamin Zephaniah
Benjamin Zephaniah (1958–2023) foi um dos principais nomes da dub poetry britânica, nascido e criado em Birmingham, com uma obra profundamente influenciada pela cultura jamaicana, pelo reggae e pela política das ruas.
Poeta, performer, músico e ativista, levou a poesia para além da academia, usando a oralidade, o ritmo e a performance para tratar de racismo, injustiça social, direitos humanos, veganismo e identidade negra, tanto para adultos quanto para crianças e jovens.
Tornou-se uma figura popular ao levar a dub poetry para a televisão, para os palcos e para a música, colaborando com diversos artistas. Além da literatura e da música, Zephaniah também atuou como ator, com destaque para sua interpretação de Jeremiah Jesus na série Peaky Blinders, ampliando ainda mais o alcance cultural de sua voz política, poética e radicalmente acessível.
Lillian Allen
Lillian Allen é uma das principais referências internacionais da dub poetry, nascida na Jamaica e radicada no Canadá, onde se consolidou como poeta, artista sonora, educadora e ativista cultural.
Com uma obra marcada pela fusão entre poesia falada, reggae e política, ela ajudou a definir e expandir os limites do gênero, levando sua poesia a grandes palcos, à televisão, ao cinema e a públicos globais.
Vencedora de dois Juno Awards e autora de livros e gravações aclamados pela crítica — inclusive para crianças e jovens —, Allen também atuou como estrategista cultural e professora de escrita criativa na OCAD University, inspirando novas gerações a usar a criatividade como ferramenta de resistência, transformação social e ocupação de espaços.
Mutabaruka
Mutabaruka é um dos nomes mais influentes da poesia jamaicana contemporânea e uma voz central da dub poetry e da poesia performática negra.
Formado em eletrônica, abandonou a carreira técnica ao se aproximar do Rastafarianismo, que passou a orientar sua visão política, espiritual e artística durante o período de intensa conscientização negra no final dos anos 1960 e início dos 1970. É um dos primeiros poetas amplamente populares dessa nova geração, escrevendo na linguagem do povo, dialogando com o reggae e conquistando um público amplo por meio da performance ao vivo.
Embora rejeite rótulos como “poeta de protesto” ou “dub poet”, sua obra combina crítica social, humor ácido e reflexão histórica, alcançando plena força no palco e consolidando Mutabaruka como uma das vozes mais contundentes e respeitadas da poesia falada caribenha.
Jean “Binta” Breeze
Jean ‘Binta’ Breeze (1956–2021) foi criada por seus avós agricultores no interior da Jamaica, formou-se na Jamaican School of Drama e, aos 30 anos, mudou-se para o Reino Unido ao lado de Linton Kwesi Johnson, tornando-se a primeira mulher a se destacar na cena da dub poetry, até então dominada por homens.
Sua obra combina reggae, palavra falada e política, mas vai além do protesto direto ao explorar, com sensibilidade e força rítmica, memórias da infância, a vida urbana em Londres e as dimensões psicológicas da experiência das mulheres negras.
Autora de livros, gravações e textos para teatro e cinema, Breeze valorizava profundamente a voz humana e a performance, transformando seus poemas em experiências sonoras e quase ritualísticas, nas quais liberdade, identidade e prazer coexistem com crítica social e lirismo.
Yasus Afari
Yasus Afari, nascido John Sinclair no interior de St. Elizabeth, Jamaica, é um dub poet marcado por forte convicção espiritual, consciência política e compromisso social. De origem humilde, destacou-se desde cedo nos estudos e no ativismo estudantil, experiência que o levou a assumir a poesia como ferramenta de transformação coletiva em um período de intensa turbulência política no Caribe.
Nos anos 1980, ganhou projeção com performances em universidades e parcerias musicais importantes, incluindo colaborações com Garnet Silk, Maxi Priest, Black Uhuru, Tony Rebel e outros nomes centrais do reggae.
Reconhecido internacionalmente, recebeu prêmios como Dub Poet of the Year (1993 e 1994), realizou turnês globais — inclusive no Brasil e na África, onde foi simbolicamente coroado em países como Etiópia e Gana — e consolidou-se como produtor cultural e idealizador de eventos como Poetry in Motion e o Jamaica Poetry Festival, celebrando e ampliando o legado da poesia jamaicana.
Michael Smith
Michael “Mikey” Smith (1954–1983) nasceu em Kingston, Jamaica, e começou a escrever poesia ainda jovem, inspirado pela observação do cotidiano e pelas tensões sociais e políticas do país.
Ganhou projeção internacional no fim dos anos 1970 e início dos 1980, com apresentações em Cuba, no Caribe, na Europa e no Reino Unido, além do lançamento do álbum Mi Cyaan Believe It (1982), pela Island Records.
Considerado um poeta do povo, profundamente ligado à oralidade e à realidade social jamaicana, Mikey Smith teve sua trajetória interrompida de forma violenta ao ser assassinado em 17 de agosto de 1983, aos 28 anos, deixando um legado marcante na história da dub poetry e da poesia performática caribenha.
Roger Robinson
Roger Robinson (nascido em 1967, em Hackney, Londres, filho de pais trinidadianos) é um poeta, escritor, performer e educador de reconhecimento internacional.
Criado parcialmente em Trinidad, para onde se mudou ainda criança, retornou ao Reino Unido aos 19 anos, trazendo para sua obra uma sensibilidade caribenha que atravessa toda a sua escrita. Ao longo da carreira, construiu uma trajetória marcada por livros premiados.
Reconhecido como uma das vozes centrais do cânone da escrita negra britânica contemporânea, Robinson também é cofundador de coletivos literários e mantém uma prática que une poesia, performance, educação e engajamento cultural.
Prince Far I
Prince Far I foi um dos nomes mais marcantes do roots reggae, reconhecido por sua voz profunda e por um estilo de deejay único, mais próximo do canto ritual do que do toasting tradicional.
Criado em Kingston, no bairro de Waterhouse, foi fortemente influenciado pela cultura dos sound systems e iniciou sua carreira nos anos 1970, quando adotou o nome Prince Far I – The Voice of Thunder. Consolidou seu legado com álbuns fundamentais como Psalms for I (1976) e Under Heavy Manners (1977), unindo espiritualidade bíblica, comentário político e batidas pesadas de reggae e dub. Faleceu em 1983, deixando uma obra que permanece central na história do reggae.
No-Maddz
No-Maddz é um coletivo jamaicano de dub poetry e reggae formado em 2000 no Kingston College. Em 2010, lançaram o álbum The Trod, considerado o primeiro disco de reggae ao vivo produzido na Jamaica no novo milênio e apontado como um marco.
Desde 2018, o No-Maddz atua como um duo — Sheldon “Sheppie” Shepherd e Everaldo “Evie” Creary — mantendo uma proposta que funde dub poetry com diferentes gêneros musicais, enraizada no espírito do roots reggae jamaicano.
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Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
