Seggae: conheça o reggae que nasceu nas Ilhas Maurício

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O reggae jamaicano encontrou nas Ilhas Maurício, um país insular no Oceano Índico, no sudeste africano, um caminho próprio. O nome desse encontro é seggae, um gênero musical que nasce da mistura entre o sega, música tradicional da ilha, e o reggae, já presente no cotidiano local desde os anos 1970.

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Criado nos anos 1980 por Joseph “Kaya” Réginald Topize, o seggae não é apenas uma fusão musical. É uma resposta cultural às marcas da colonização, às desigualdades sociais e à busca por identidade em um país formado por múltiplas diásporas.

Kaya

Antes do seggae, o sega: música africana do século 18

Para entender o seggae, é preciso voltar alguns séculos. O séga é a principal música tradicional da Maurícia (como também são conhecidas as ilhas Maurício) e das ilhas Mascarenhas. Surgiu entre os séculos 18 e 19, criado por pessoas escravizadas trazidas principalmente de Madagascar e Moçambique. Cantado em crioulo, o séga sempre esteve ligado à dança, ao cotidiano e à transmissão de memória entre comunidades afrodescendentes, funcionando também como espaço de comentário social e resistência.

Originalmente feito apenas com ravanne, triângulo e voz, o gênero foi por muito tempo marginalizado pelas elites coloniais, visto como uma música vulgar ou “primitiva”. Um de seus maiores nomes foi Jean Alphonse Ravaton, conhecido como Ti Frère – significa “irmãozinho” em crioulo -, que gravou seu primeiro álbum em 1925 e foi coroado o “Rei do Séga” em 1964. Nascido em 1900, Ti Frère ajudou a consolidar o séga tradicional (séga typik), gravou o primeiro disco 45 rotações da Maurícia e manteve viva a música mesmo diante do preconceito e da pobreza.

 

 

Ao longo do século 20, o séga passou por transformações, incorporando instrumentos elétricos e novas influências, sem romper com suas raízes. O legado de Ti Frère e do séga tradicional segue presente até hoje e foi fundamental para que gerações seguintes imaginassem novos caminhos sonoros — incluindo o encontro com o reggae que daria origem ao seggae.

Quando o reggae encontra o Oceano Índico

Nos anos 1970 e 1980, o reggae jamaicano já circulava com força nas Ilhas Maurício. Bob Marley, Peter Tosh e Burning Spear faziam muito sentido para uma juventude que reconhecia, nas letras e no ritmo, experiências muito próximas das suas.

É nesse contexto que Joseph Kaya percebe algo: amar o reggae não bastava. Era preciso traduzir aquela linguagem para a realidade local. O caminho foi unir o reggae ao sega, criando um som que fosse, ao mesmo tempo, global e profundamente mauriciano.

O seggae mantém o tempo e o balanço do sega, mas incorpora elementos do reggae como o baixo marcado, a guitarra e a abordagem lírica mais direta. O resultado não desacelera para ouvir — ele convida a dançar enquanto estimula a pensar.

Kaya: música como tomada de posição

Kaya vinha de Roche-Bois, um bairro popular de Port Louis, capital da Maurícia, uma área majoritariamente crioula, e foi uma voz ativa na defesa dos direitos da população crioula, em um período marcado pelo chamado Malaise Creole – um mal-estar social ligado ao legado da escravidão e do colonialismo, que se reflete até hoje em pobreza, marginalização política e tensões sociais, temas presentes na obra de Kaya.

Kaya tocava sucessos de artistas como Mike Brant, Santana e Deep Purple aos 16 anos, quando aprendeu a tocar guitarra. Começou se apresentando em casamentos com sua primeira banda, Wind and Fire, e também animava bailes. Ele adotou o nome Kaya após conhecer a obra de Bob Marley e mergulhar no reggae.

Criou seu próprio grupo, Racinetatan, junto de amigos de seu bairro natal. O nome da banda vem de um príncipe malgaxe que foi exilado na Maurícia. Kaya percebeu que a ideia de “raízes e cultura”, tão valorizada na Jamaica, não recebia o mesmo reconhecimento na Maurícia. Para a população crioula mauriciana, a fusão entre a música local e o reggae passou a ocupar um lugar importante no cotidiano e na afirmação cultural.

 

 

Quando cria o seggae, Kaya também assume um papel público: canta em crioulo, fala sobre desigualdade, racismo, espiritualidade, justiça social e direitos da população. Suas músicas circulam amplamente, e ele se torna uma das figuras mais conhecidas do país.

 

 

Em fevereiro de 1999, Kaya é preso após fumar maconha no palco durante um show. Dias depois, morre sob custódia policial. A versão oficial fala em acidente; uma segunda autópsia aponta sinais de violência policial.

A morte de Kaya provoca três dias de revolta nas ruas da Maurícia. Jovens enfrentam a polícia, prédios são incendiados, o país entra em estado de ebulição. No funeral, multidões cantam suas músicas. Kaya deixa de ser apenas um artista: torna-se um símbolo de uma geração que exige reconhecimento, justiça e dignidade.

Depois de Kaya, os caminhos do seggae

Longe de desaparecer, o seggae se fortalece após 1999. Artistas como Ras Natty Baby, Ton Vié, Tian Corentin, OSB (Otentikk Street Brothers), Blakkayo, Sayaa, Bruno Raya e Natty Jah, entre outros nomes, expandem o gênero em diferentes direções.

 

Ras Natty Baby

 

Recentemente, o artista Marcus Gad e seus músicos se encontraram com Ton Renald, irmão de Kaya, na faixa “Lavérité”, tocando diretamente no assunto que marcou para sempre a história da música local (veja a matéria aqui).

 

 

Há também espaço para novas gerações e cruzamentos com outras linguagens — do zouk ao hip hop — sem que o vínculo com o sega e com a história local se perca.

Como o seggae soa (e o que ele diz)

O seggae costuma manter o pulso do sega, com forte presença de percussão, linhas de baixo bem definidas e guitarras que dialogam tanto com o reggae quanto com a música popular local. As letras, quase sempre em crioulo, falam de amor, cotidiano, política, espiritualidade e pertencimento. É música de rua, de baile, de encontro — e também de confronto.

O seggae nasce do passado, mas nunca ficou preso a ele. Ao unir o sega — música criada por pessoas escravizadas — ao reggae — som global da diáspora negra —, Kaya abriu um caminho próprio para a Maurícia se ouvir e se contar.

Mais do que um gênero, o seggae é uma forma de narrar o país: com contradições, cicatrizes, alegria, raiva e desejo de futuro.

 

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