“DUB – A Web Série”: da redescoberta dos bailes da zona leste de SP à importância de narrar a própria história
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O que acontece quando uma cultura construída no asfalto e no suor dos bailes de rua carece de registros que eternizem seus protagonistas? Para Evelyn Kosta, idealizadora e diretora de “DUB – A Web Série”, a resposta é o risco do apagamento. Ao reencontrar os bailes da Zona Leste de São Paulo após anos de ausência, ela percebeu que a falta de documentação fotográfica e em vídeo era um silêncio perigoso para uma cultura preta, que sempre resistiu através da oralidade.
O projeto nasce com um viés: entender quem são as pessoas por trás das caixas de som e o que as mantém no corre, mesmo diante da falta de apoio financeiro e da persistente violência policial. Dos conselhos ancestrais de figuras como Célia Sampaio à rebeldia da nova geração que flerta com o funkhall e desafia tradições, a série divide o reggae em pilares para que o público, de dentro ou de fora da bolha, compreenda a complexidade desse ecossistema.
Nesta entrevista exclusiva de Evelyn para o Groovin Mood, mergulhamos nos bastidores dessa produção que enfrentou o descrédito de uns e o acolhimento de muitos para provar que, na era dos algoritmos, o verdadeiro protagonismo ainda se constrói com a memória e com a resistência.

Groovin Mood – Como nasce a ideia de DUB – A Web Série? Foi uma inquietação pessoal, uma demanda da cena ou algo que foi se construindo ao longo do tempo?
Evelyn Kosta – A ideia veio de uma redescoberta dos bailes da leste que voltei a frequentar depois de muitos anos. O projeto veio quando percebi que nos bailes tinham poucos registros tanto fotográficos, quanto de vídeo, tive noção que essa falta de registro é prejudicial. Decidi contar a história de pessoas que constroem essa cultura pra que não fossem apagadas como tantas outras da cultura preta, ainda mais brasileira.
GM – Quando você pensou no projeto, identidade e resistência já eram os eixos centrais ou eles emergiram durante as gravações?
Ek – Sim, desde o início meu foco era em ter registro sobre uma cultura preta e em como ela vai se modificando com o tempo, por isso chamei pessoas diversas pra justamente mostrar como todos se unem por um ideal maior.
GM – Por que escolher o formato de web série para contar essas histórias?
EK – Entendi logo de cara que não iria conseguir falar de tudo, logo dividi episódios por tema pra ficar mais fácil pro público de fora entender alguns pilares do reggae.
GM – O que você sentiu que ainda não estava sendo contado sobre a cultura reggae e que o DUB se propõe a mostrar?
EK – Entender pra além do profissional quem são as pessoas que constroem e porque fazem isso. É quase um trabalho antropológico de se olhar um pouco mais perto e se colocar no lugar de pessoas que as vezes você só vê ali fazendo o evento mas não entende o que se passou pra chegar até ali ou se manter no corre.
GM – Durante as entrevistas, você percebeu diferenças marcantes entre a visão das gerações mais antigas e da nova cena?
EK – Com certeza.
A nova geração, eu sinto quase como se fosse um movimento mais rebelde do reggae, de não querer seguir algumas tradições. Os mais velhos com o peso de se carregar anos de invisibilidade, pouco reconhecimento mas segue firme na cultura com muito o que ensinar e aconselhar.

GM – Como foi o processo de escolha das pessoas entrevistadas? Que critérios você usou para definir quem representa essa ideia de identidade e resistência?
EK – Fui focando por tema mas procurei muito por contraste. Pessoas que são do roots, dancehall, funkhall, que constroem com as mãos literalmente um Sound system ou faz uma rádio somente de reggae, e foi assim que fui achando alguns caminhos em comum.
GM – Houve algum depoimento que te marcou especialmente ou que mudou sua própria visão sobre a cena?
EK – Célia Sampaio, infelizmente não vou conseguir colocar a entrevista dela na íntegra e isso me deixa triste de verdade.
Aquela entrevista me mudou, me aconselhou, me acolheu e ensinou tanto, não consigo nem colocar em palavras o quão grata fui por essa entrevista.
GM – Você acredita que o reggae hoje resiste às mesmas coisas que resistia no passado? O que mudou?
EK – A mudança em si é no tempo, a sociedade soube camuflar bem e quase não se vê certas coisas, mas a violência policial continua e isso não é aceitável para um grupo que busca lazer aos fins de semanas. Nos tiram tempo, saúde e ainda querem nos tirar o lazer. Acredito que a visibilidade tem furado cada vez mais a bolha e isso pode ser benéfico pra buscar mais direitos, visibilidade pra questões políticas que o reggae sempre trouxe porque resistência o reggae sempre foi.
GM – Em uma cultura que muitas vezes é construída de forma oral, qual é a importância de documentar essas histórias agora? O que se perde quando a memória da cena não é registrada e o que se fortalece quando ela passa a existir como arquivo?
EK – O reggae expandiu. Sem documentos se perde memórias que daqui 5, 10 anos vai nos mostrar o quanto as coisas mudam. Isso pode gerar material para exposições, para matérias, para estudo como TCCs, regências musicais da cultura e etc. É importante dar nome a quem construiu o coletivo, quem foi o selecta que daqui um tempo vai ter 15 anos de carreira. Poder olhar pra trás com imagens pros mais antigos sempre foi um privilégio que custava muito, mas hoje em dia com a tecnologia se constrói isso com uma maior facilidade de se armazenar.
GM – Você vê uma nova geração assumindo protagonismo? Como ela se organiza? Que desafios essa geração enfrenta hoje para manter a cultura viva?
EK – A tecnologia com um marketing bem trabalhado junto com algoritmo, gera grandes números e isso dá uma sensação de protagonismo sim. Acredito que o maior desafio é a falta de apoio financeiro pra fazer o baile acontecer.
GM – Qual foi o momento mais desafiador da produção? E o momento mais emocionante?
EK – O momento mais desafiador foi encontrar pessoas que desacreditaram do projeto por não entenderem a importância de se construir uma série desse tamanho. O mais emocionante foi me conectar com entrevistados, aprendi muito nesse processo de gravação, e o carinho que recebi do público e pessoas da comunidade de apoiarem a ideia de se montar um doc complexo como foi esse.
“DUB – A Web Série” está nos processos finais e deve ir ao ar nos próximos meses, segundo Evelyn. Acompanhe as novidades pelo Instagram do projeto.
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Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
