La Comadre: iniciativa colombiana transforma cultura sound system em ferramenta de apoio na América Latina
Diana León, fundadora La Comadre
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Por muito tempo, ocupar o controle de um sound system foi algo difícil e distante para as mulheres na cultura reggae em todo o mundo. Felizmente, ao longo principalmente da última década, esse quadro vem mudando por conta de diversas iniciativas ao redor do planeta que enfrentam essa lógica.
Uma dessas ações é a Red La Comadre, de Bogotá, Colômbia, que é um dos projetos da Fundación La Comadre, liderada por Diana León, também conhecida como Rain Selectress. Além da rede e da fundação, La Comadre é também um sound system, que conecta pela música todas essas frentes.
Em uma entrevista exclusiva, conversamos com Diana para saber como essa movimentação se dá e impacta não só o território colombiano, mas toda a América Latina – incluindo conexões com o Brasil e com o México e desdobramentos como o projeto Amplificadas.
Groovin Mood: A Rede La Comadre nasce da união entre som, memória e cuidado. A partir da sua experiência pessoal como mulher dentro da cultura reggae e sound system, que vivências te levaram a criar este projeto e a colocar o som como eixo central?
Diana León: Bom, como mulher na cultura reggae e sound system, quando comecei sempre percebi a necessidade de espaços para tocar, sem preconceitos, onde se pudesse cometer erros e ainda assim vibrar com a música sem morrer de nervosismo. Então, a Red La Comadre não nasceu de uma ideia de escritório, nasceu na pista.
Tudo começou com a La Tarde Rosa: foram 10 encontros de vinil em Bogotá, onde mulheres e pessoas dissidentes se reuniam para compartilhar música. Para mim, era incrível ver como, para muitas, foi a primeira vez que se atreveram a tocar, e isso alimentava minha alma, porque passei pelas mesmas experiências e criar esses espaços era uma forma de apoiá-las.
Começamos a nos abrir para outros gêneros musicais, pois quase não tínhamos mulheres do reggae naquele momento, mas chegavam garotas seletoras de cumbia, hip hop, salsa, disco, afro, e percebemos que, além do ritmo, o que nos unia era o amor puro pela música.
Até começamos a receber mensagens de mulheres de outros países que vinham a Bogotá procurando um lugar para tocar e compartilhar. Sem planejar, nos tornamos uma referência e porta de entrada para a cidade.
De repente, a mágica aconteceu: elas mesmas começaram a organizar seus próprios eventos e a se convidar mutuamente. Foi aí que entendi que precisávamos de algo sério, mas com essa mesma essência. Aproveitei uma convocatória da Secretaria de Cultura e lancei uma consulta para entender o que estava acontecendo conosco na cena underground, porque a informação oficial sempre se focava em músicas tradicionais, e nós estávamos em outro radar.
Resultado? Mapeei necessidades, sonhos e realidades socioeconômicas que ninguém mais estava observando. Com todos esses dados, dei vida ao www.redlacomadre.art. Não é apenas um site; é o resultado dessa pesquisa e um diretório que cresce a cada dia, mostrando que, nesta indústria, não somos apenas artistas: somos gestoras, jornalistas, produtoras e engenheiras.
E, paralelamente, a La Comadre também ia tomando forma, e com esta rede eu dizia: “Aqui estamos, somos muitas e estamos movimentando a indústria”.
Groovin Mood: Antes da La Comadre, você já era ativa como seletora de reggae. O que o reggae significou na sua formação pessoal e política, e como o gênero moldou sua maneira de entender território e comunidade?

Diana León: Muito antes da La Comadre, fui uma das fundadoras do coletivo Chié Sound. Lá encontrei o apoio de outras mulheres que compartilhavam o mesmo amor pelo reggae e a vontade de estar do outro lado da pista; sabíamos que nossa seleção musical faria as pessoas dançarem e que também havia vozes femininas no microfone com mensagens urgentes que precisávamos transmitir.
Para mim, o reggae é muito mais que um gênero musical: é vida e alegria. Mas, acima de tudo, é politicamente humano. Me identifico profundamente com letras que falam de direitos, da conexão com Jah e da resistência contra Babylon. Essa filosofia dá a postura política e pessoal com a qual crio e desenvolvo meus projetos.
É verdade que sempre houve o ruído de ver majoritariamente homens e ouvir letras escritas por eles. No entanto, como mulher latino-americana, essas palavras ressoam em mim e me impulsionam a lutar contra as desigualdades impostas pelo sistema. Sinto essa rebeldia do despertar de muitas mulheres; é incrível, porque enquanto isso acontecia aqui na Colômbia, percebi, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente e apenas pelas redes sociais, que havia um despertar coletivo de mulheres no mundo, sempre presentes, mas que não se atreviam a assumir outras posturas.
O reggae tem a magia de conectar com territórios e comunidades. Muitos ficam apenas nas músicas de Bob Marley, mas quando ouvem reggae em um sound system, algo muda na mente. É o poder do baixo que bate no peito e conecta direto ao coração.
Groovin Mood: A La Comadre também é um sound system. Como foi o processo de criar seu próprio sistema de som e que desafios enfrentou ao ocupar um espaço historicamente masculinizado dentro dessa cultura?
Diana León: A La Comadre, além de fundação, é um sound system construído e pintado à mão por uma das minhas melhores amigas e artista que mais admiro: Yodax. O processo foi como gestar uma filha; nasceu da ilusão e do sonho de ter independência total sobre meus próprios projetos, como La Tarde Rosa, La Tarde Morada e as mil ideias que sempre rondam minha cabeça.

Foi um caminho longo, cheio de perguntas técnicas e medos. Embora eu já tivesse compartilhado momentos com sistemas da Colômbia, México e Nova York, outra coisa é entender detalhes: como escolher o design das caixas? Quanto de madeira é necessário? Que tipo de madeira é ideal? Coisas que parecem simples, mas são a alma do sound. Viajei, conheci e perguntei a cada pessoa que cruzava meu caminho. Foi lindo receber apoio de amigos como Spiritual Sound no México, Indica Dubs e até de picoteros como El Morro “The Animal” do Urabá. Sem essa rede, não teria enfrentado as primeiras barreiras e medos.
Outro grande obstáculo foi econômico. Ser mulher e mãe solo na América Latina não facilita; a brecha é grande quando você precisa criar um filho sozinha, que também exige tempo e atenção. Mas confio nos processos e tinha fé em realizar.
As coisas foram se encaixando e consegui apoio financeiro para concretizar, e claro, durante o processo surgiram outros desafios. Tive o apoio vital da Chontaduro Records, que ajudou a finalizar o equipamento e, principalmente, a me ensinar sobre eletricidade, carpintaria e equalização. Sou profundamente grata aos amigos e colegas que me apoiaram nesse caminho; é vital que existam homens, nesses espaços tão masculinizados, que entendam e apoiem a ideia de que nós também queremos assumir o controle do som.
Groovin Mood: Vocês costumam dizer que “mais que um som, são um sistema de apoio”. Como o sound system La Comadre se transforma, na prática, em ferramenta de resistência política, cuidado comunitário e reparação simbólica?
Diana León: Sim, dizemos isso porque, no fim, essa é nossa visão: o sound system é, essencialmente, um sistema de apoio e uma grande família global. É algo que vivi em cada viagem; saber que, não importa onde você esteja, fará “clic” com alguém da cultura que oferecerá ajuda. Vai além de conexão musical, é rede de amizade, suporte e gestão de vida.
Com a La Comadre quero aprofundar esse legado, especialmente para mulheres e setores populares. Meu objetivo é nos aproximarmos de processos de barrio e expandir a visão além do reggae, abraçando outras culturas do som como a picotera e a sonidera. Apesar de estéticas diferentes, todas nascem da mesma necessidade: encontro e apoio comunitário. Por isso escolhi esse nome. Comadre não é qualquer palavra; não é um “compadre” qualquer. Uma comadre é alguém que está com você nos bons e maus momentos, muito mais que uma amiga. É com quem se cria, com quem se sustenta a vida. Essa é a essência que busco para este projeto: um espaço onde o som é pretexto para construir comunidade.
Groovin Mood: Das sessões às ativações em espaços públicos, a La Comadre ocupa ruas, praças e centros culturais. Que mudanças você percebe quando uma mulher está à frente do som e do controle técnico do sistema?
Diana León: Muitas, de verdade. Quando uma mulher está à frente, a visão muda: torna-se uma gestão voltada à proteção e ao bem-estar coletivo. Para mim, é natural incluir processos como cozinhas comunitárias, porque busco oferecer comida e compartilhar além do prazer da música. Notei que, sob esse enfoque, mais mulheres e dissidências se aproximam com curiosidade, perguntam sem medo de julgamentos ou de se sentirem menos por não dominar questões técnicas.
Somos uma equipe mista, e isso nos permitiu transformar dinâmicas internas. Questionamos temas que normalmente são dados como certos, como masculinidades e paternidades. Na cena noturna, sempre perguntam para as mulheres: “E seu filho? Com quem ficou?” Na La Comadre, fazemos a mesma pergunta aos homens. Para mim, é fundamental que a mudança também ocorra com meus colegas de trabalho. Buscamos respeito e coerência entre as letras do sound system e nossas ações no dia a dia.
Groovin Mood: O projeto Amplificadas conecta mulheres sonideras, picoteras e sound systems da Colômbia e México. Que aprendizados surgiram desse intercâmbio sobre lutas compartilhadas e particularidades de cada território na América Latina?

Diana León: Amplificadas é um projeto do qual me sinto muito orgulhosa. Nasceu da curiosidade de ver que existem culturas sonidera e picotera, e me perguntar: onde e como as mulheres habitam essas culturas? Conheci as Musas Sonideras (coletivo de mulheres sonideras da Cidade do México) pelo Facebook, me atrevi a escrever e me identifiquei com elas. Percebi que essas dinâmicas não acontecem só no reggae, mas em todas essas culturas.
Musas Sonideras
Amplificadas (projeto que conecta Colômbia e México) me deu oportunidade de pesquisar e, sobretudo, de fazer memória das primeiras mulheres e ancestrais que, como eu, mas em sua época, concretizaram esses espaços.
Conhecer a história da La Socia no México ou da senhora Norma Zúñiga (primeira mulher a fundar um picó) significou muito, pois me deram força para o processo da La Comadre. Suas histórias mostram que não somos as primeiras nem as únicas; antes de nós, existiram mulheres corajosas que mudaram os papéis nesses espaços na América Latina.
A ideia é aproximar essas histórias das novas gerações e mostrar que já há um caminho percorrido. Não somos pioneiras: estamos abrindo e alongando esse caminho para as que vêm depois. Algo lindo do Amplificadas foi conhecer os territórios, ruas e dinâmicas comunitárias, comparando como funciona um território fora da capital. É o projeto que fortalece nossa missão e queremos ir além: conectar com Brasil e outros territórios latino-americanos, porque sei que há mulheres lutando sozinhas e é hora de nos unirmos.
Groovin Mood: A memória e a ancestralidade atravessam tanto sua seleção musical quanto o trabalho da La Comadre. Como você equilibra o fortalecimento de memórias sonoras com a criação de novas narrativas?
Diana León: Lembro muito das palavras do meu professor de técnicas de mixagem: “Um bom set mistura nostalgia e novidade”. E assim é a vida: equilíbrio entre passado e presente. Sem essas memórias, como construir novas narrativas? Como perceber o que realmente estamos mudando e o que ainda falta percorrer?
Isso é vital, especialmente nas memórias sonoras, onde tudo que acontece no mundo fica registrado. Ali se guardam pensamentos, sentimentos e, sobretudo, vozes de rebeldia e resistência que nos dão identidade.
Groovin Mood: Além do ativismo cultural, a La Comadre constrói caminhos de sustentabilidade econômica. Quais são hoje os principais desafios para manter um projeto comunitário, feminista e independente?
Diana León: Uff, grande pergunta. Fazer ativismo cultural é um desafio pessoal enorme porque requer resiliência e abrir a mente para deixar de ver a cultura e a arte como algo precário, entendendo que fazemos parte de algo maior, de uma indústria que move o mundo e sustenta a humanidade em meio ao caos. O principal desafio sempre é a sustentabilidade econômica: a vontade de impactar existe, mas o financeiro é o mais difícil, ainda mais quando falamos de condições dignas para quem está nisso.
Na fundação, criamos várias linhas. Uma é a Escola de Agitadorxs, para compartilhar conhecimento essencial da cultura — gestão, comunicação, produção, gráfica — e gerar economia circular para quem compartilha e recebe conhecimento, mantendo essa linha pedagógica tão importante quanto o trabalho de rua.
Outra linha é a merch: vendemos camisetas, cachecóis e mini sistemas de som (turbos) feitos em Barranquilla e com intervenções de Yodax, uma das poucas mulheres no mundo da ilustração picotera. Por fim, as doações, usadas para campanhas que levam som local às ruas e cobrem custos operacionais. E claro, escrever e participar de editais, porque tudo isso é abrir espaço no sistema e captar recursos para fazer cultura.

Groovin Mood: Falar de cuidado dentro da cultura sound system nem sempre é comum. Como se traduzem cuidado e autocuidado em práticas concretas dentro do time, dos eventos e da rede que construíram?
Diana León: Comecemos pelo autocuidado: é essencial estar consciente das próprias necessidades, como se alimentar, hidratar e estar fisicamente preparado para a festa ou para carregar o sound system. Também envolve refletir sobre problemas de violência ou necessidade de ajuda, pois tudo nasce em casa; respeito, tolerância e empatia com quem está ao redor fortalecem o cuidado coletivo.
O coletivo é igual: questionamos como reagimos a violências ou quando alguém precisa de ajuda no espaço, seja por mal-estar, fome ou desidratação. No sound e na fundação, o primeiro ponto é que todos saibam que este é um espaço onde mulheres importam muito e todos devem ser respeitados. Problemas legais? Melhor não vir, porque aqui não é seu espaço, a menos que esteja reparando danos. Na rede, também há acordos de participação baseados em respeito e colaboração, para que participantes e facilitadores entendam o que fazemos e nossa missão.
Groovin Mood: Seu trabalho dialoga com a tradição do reggae jamaicano, a cultura picotera colombiana e outros movimentos sonoros do continente. Como você vê o lugar da Colômbia — e das mulheres — no mapa do reggae e do sound system latino-americano?
Diana León: Ainda faltam mais mulheres colombianas no reggae. Quando fui ao Brasil e conheci as radiolas e a Jamaica brasileira, pensei “wow”, especialmente pelo reggae roots, já que na Colômbia o dancehall é mais forte, por nossas raízes africanas e indígenas, onde a cumbia também tem papel importante.
Aqui, o corpo é tudo: como dançamos e nos relacionamos. No sound, já somos mais, ainda que nem todos focados no reggae, mas na cultura rave. Bogotá é mais eletrônica que o litoral, e o picó está no Caribe, no interior, na montanha; isso não nos diferencia totalmente, mas ao fim somos colombianos. Gostaria que existissem mais espaços para tocar roots e espaços para o gênero crescer mais.
Groovin Mood: A La Comadre construiu diálogos que cruzam fronteiras na América Latina. Como você percebe a conexão entre La Comadre e o Brasil, e que aprendizados surgem desse intercâmbio?
Diana León: Muitas conexões com o Brasil vêm do afro, da rua e do bairro; isso, em geral, nos faz latinos. Com o Brasil, é mais sobre África, percussões e visão de vida. Muito diferente do México, que também tem magia cultural e ancestral. Nos une também a Amazônia, ainda que, sendo do interior, a imaginei distante.
Quando fui ao Brasil, ao festival Paredão em Brasília, e conheci coisas como o Crocodilo (aparelhagem do Pará), minha mente fez “boom”. Isso despertou minha curiosidade de conhecer e investigar mais o Brasil e suas músicas, sobretudo o sound system e culturas próprias do som. Sei que há muitas mulheres com seus sons; o coletivo Feminine Hi-Fi foi referência para Chié Sound. Ver mulheres criando coletivo no sound e com força nos fez pensar: “Se elas podem, nós também!”. Admiro pessoalmente muito. Há muito a construir: pontes e redes, pois estamos lado a lado e somos potências culturais com muito a dizer ao mundo.
Groovin Mood: Como seletora, gestora e fundadora de um sound system, que mensagem você daria a mulheres e dissidências que querem criar seus próprios projetos sonoros, mas ainda sentem que esses espaços não lhes pertencem?
A mensagem é que somos capazes de tudo, somos poderosas, e por muitos anos fomos a base de muitas coisas. Devemos defender nossas liberdades e, principalmente, entender que se se abre a porta para uma, deve-se abrir para todas. Precisamos nos unir, com consciência, e que não fique só no discurso bonito. Devemos acreditar no ciclo de nossas vidas, que às vezes nos torna mais sentimentais, e é aí que reside nossa força de nos reinventar todos os dias.
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Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
