Entrevista: Ministereo Público Sound System leva Salvador a Kingston e reforça ponte entre Brasil e Jamaica
Foto: Jardel de Souza
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No último mês de fevereiro, o Ministereo Público Sound System realizou, através da plataforma Giro Conecta, uma nova etapa na internacionalização da música produzida na capital baiana. O coletivo desembarcou na capital jamaicana, Kingston, a convite do Ministério da Cultura da Jamaica para uma apresentação no Festival Marketplace, em um encontro inédito com o lendário Stone Love Sound System. O festival também integrou as celebrações pelos 10 anos de Kingston como Cidade Criativa da Música da UNESCO.
Levar o som de Salvador para o berço do reggae foi uma experiência única, como explica DJ Raiz, em entrevista para o Groovin Mood. “Foi um desafio pois sabemos que o público em Kingston gosta de escutar a música deles, mas conseguimos conquistar os nativos, curtiram os reggaes da Bahia, como Lazzo Matumbi, Geraldo Cristal, Mukambo, e também nossas autorais e dubplates”, relata, destacando a recepção positiva do público jamaicano.
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Além do festival, o Ministereo Público participou do evento Strictly Vinyl Juggling, realizado no Dubwise Cafe, em uma programação que reuniu DJs e colecionadores de diferentes partes do mundo, e ainda de um encontro especial na University of the West Indies, reforçando a ponte cultural entre Brasil e Jamaica. Com o tema “Reggae is a Bridge”, a programação musical contou com Ministereo Público Sound System e Ademar Danilo, diretor do Museu do Reggae, localizado em São Luís, Maranhão. A atividade teve apoio do Instituto Guimarães Rosa e da Embaixada do Brasil na Jamaica, com realização da Faculty of Humanities and Education da universidade, parceria da Giro Conecta e produção da D.ONE.
Um dos pontos altos da experiência foi a vivência direta com o Stone Love. “No palco a grande experiência foi operar os controles do Stone Love Sound System, tocar na Festa Kingston Riddim foi uma grande realização, ao lado do Jamrock Sound System e Travelers Sound System, ainda teve a presença da Ministra da Cultura. Nos bastidores, nós fomos convidados pelo Ministerio da Cultura da Jamaica rsrs então, tinhamos até van disponível para nossos rolés, museus, praia, bailes hehe. Ministros! hahaha”, conta, se divertindo.
Sobre o encontro com um dos sound systems mais emblemáticos da história, ele reforça a dimensão do momento: “Foi sensacional, os caras foram muito solícitos, fiquei observando eles tocarem, discotecagem dinâmica, mixagens rápidas, a cada minuto trocando de música, sirenes, vinhetas, explosões… Quando assumimos já sabíamos o que fazer, cortes de subgraves, sirenes analógicas, publico dançando, foi incrível!”.
A experiência também evidenciou afinidades entre as cenas de Salvador e Kingston. “Eu acho que temos similaridade no estilo de tocar, turntablism, apesar de eles estarem com controladoras, o estilo de mixagem, às vezes um scratch, rewinds, bpms alinhados. É o nosso estilo. A diferença é o idioma, o endereço”, analisa.
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Essa conexão passa diretamente pela identidade sonora do grupo. “Nossas produções musicais falam por si, desde sambahall riddim em 2009 até Ubuntu 2026 a gente traz essa identidade. Células de samba no reggae, levadas de candomblé no Dancehall. E geralmente a gente prepara um set mais percussivo sem perder a essência Jamaica e vamos sentindo o público. Se for regueiro, a gente conduz no modo clássico. Se for Dancehall vibz, é tudo nosso. Se for um festival eclético, aquele set com músicas mais percussivas, afro brasileiro, ragga repente, mixando com os clássicos jamaicanos.”
Para o coletivo, a singularidade brasileira é justamente essa capacidade de síntese cultural. “A gente carrega nossa identidade em tudo, o Ministereo especialmente faz questão em apresentar com muita verdade, e sinto que agrega bastante desde a espiritualidade, a narrativa e sonoridade”, afirma.
Nesse sentido, os intercâmbios ganham papel central no fortalecimento da cultura sound system. “De suma importância termos países vizinhos que têm sound systems pesados, artistas de reggae de varias vertentes, precisamos cada vez mais trocar com los hermanos da América do Sul e região caribenha”, pontua.
DJ Raiz também avalia que o reconhecimento internacional da cena brasileira está em ascensão. “Com certeza há um reconhecimento do Brasil na cena Sound System, artistas internacionais e nacionais também fazendo turnês passando por Sound System de Norte e Sul do País. Sem patrocínios, sem depender de grandes festivais. Totalmente independente.”
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Apesar dos avanços, ele acredita que ainda há espaço para ampliar a presença em grandes eventos. “Percebo que podemos somar muito nos grandes festivais, temos uma base de público fiel, diferenciado, pessoas respeitosas, politizadas e de todas as idades, sedentos por vibrações como a nossa. Podemos estar em Tendas, Arenas, Circuitos que agregam valor estético, turístico, sonoro e comercial, para qualquer tipo de evento.”
Criado em 2005, o Ministereo Público Sound System, formado por DJ Raiz, DJ Pureza e pelo dubmaster Regivan Santa Bárbara, é reconhecido como um dos projetos mais importantes da cultura sound system no Brasil. A circulação internacional integra a parceria entre o festival e o programa Salvador Cidade da Música, iniciativa da Prefeitura de Salvador por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.
Depois da experiência na Jamaica, os próximos passos já estão em curso. “Queremos voltar para Jamaica! Estamos focados na produção musical, lançar velhas e novas músicas e em paralelo já estamos preparando o álbum do Ministereo”, conclui Raiz.
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Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
