Embaixador do Afro Roots, Rocky Dawuni leva ao mundo o reggae de Gana
Rocky Dawuni / Foto: Mariusz Śmiejek
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O som de Rocky Dawuni nasce em Gana, dialoga com o Caribe e se expande pelo mundo, buscando a conexão entre culturas. Com um reggae que caminha lado a lado com afrobeat, soul e highlife, Dawuni construiu uma discografia que é, basicamente, um manifesto contínuo. Não à toa, já dividiu palco com nomes como Stevie Wonder, Bono e Janelle Monáe, artistas que também entendem a música como ferramenta de impacto.
Filho de um cozinheiro em um quartel militar em Gana, Dawuni cresceu cercado por diferentes influências culturais, tanto pelas tribos ganesas quanto por experiências fora do país, como a passagem do pai pelo Egito com forças da ONU. Esse ambiente diverso moldou não só seu ouvido, mas sua forma de ver o mundo.“Eu estava sempre procurando música”, lembra Dawuni. “Sempre que havia bandas tocando, eu me aproximava. Havia uma banda chamada Hot Barrels, e eu me lembro de ficar nos ensaios apenas ouvindo.”
Durante sua infância, a música sempre esteve no centro de suas paixões. Sua juventude coincidiu com um período de instabilidade política e golpes militares frequentes em Gana, e a música serviu como trilha sonora desse momento turbulento. Ao se mudar para Accra para estudar filosofia e psicologia na Universidade de Gana, passou horas explorando coleções de discos de amigos, descobrindo o afrobeat de Fela Kuti, o soul africano do Osibisa, grupos de highlife como African Brothers, além do reggae jamaicano e do funk e soul americanos. A partir dessas influências, passou a se aproximar de músicas que transmitissem mensagens de união e esperança.
O início mais low-tech possível
Na universidade, formou sua primeira banda, Local Crisis, com amigos. Sem instrumentos adequados, improvisavam: o baixista tocava um violão, o baterista usava uma bateria de papelão e o tecladista tinha um teclado de brinquedo. Gravaram a primeira demo cantando diretamente em um gravador de fita. “Era o mais low-tech possível”, recorda Dawuni, “mas havia muita paixão e acreditávamos no que fazíamos.”
Mesmo com recursos limitados, a banda fez sucesso imediato no campus. Em uma tentativa ousada, decidiram se apresentar em um grande evento pan-africano em Accra. Sem saber como funcionava o processo, simplesmente apareceram no escritório do promotor no dia do evento. Impressionado com a coragem do grupo, ele permitiu que tocassem após o show principal. Quando o público começava a sair, eles subiram ao palco e tocaram com intensidade e o público voltou para prestigiar. Foi um sucesso, marcando o início da carreira musical de Dawuni.
Nesse período, conheceu sua futura parceira e empresária, Cary Sullivan, fotógrafa e produtora de Los Angeles. Em busca de crescimento artístico e de uma carreira internacional, mudou-se parcialmente para Los Angeles, mantendo ligação com Gana. Em 1996, lançou seu primeiro álbum, “The Movement”, que fez grande sucesso no país, com hits como “What Goes Around” e “Sugar”.
Sua projeção internacional começou com a coletânea “Reggae Around the World” (1998), seguida por uma série de álbuns que ampliaram seu reconhecimento global: “Crusade” (1998), “Awakening” (2001), “Book of Changes” (2005) e “Hymns for the Rebel Soul” (2010). Hoje, é um nome consolidado em Gana e amplamente reconhecido internacionalmente.
De Gana para as séries, games e iniciativas globais
Sua música já integrou trilhas de séries como ER, Weeds e Dexter, além de videogames da EA Sports. Também participou de projetos com artistas globais e iniciativas como Playing for Change.
Em 2003, cofundou o Afro Funke’, evento cultural em Los Angeles dedicado à música e arte africanas, que atraiu nomes como Prince, India Arie, Queen Latifah e Stevie Wonder. Ao longo da carreira, apresentou-se em grandes festivais como Montreux Jazz Festival, Woodstock Poland e BaliSpirit Festival.
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Paralelamente à música, Dawuni construiu uma forte atuação como ativista global. Colaborou com organizações como UNICEF, Product (RED), Carter Center e ONU, atuando em causas como saúde, educação, meio ambiente e acesso à água. Em 2012, foi nomeado Embaixador de Turismo e Cultura de Gana e também Embaixador da Fundação das Nações Unidas.
Seu álbum “Branches of the Same Tree” (2015) foi indicado ao Grammy de Melhor Álbum de Reggae. Em 2019, lançou “Beats of Zion”, amplamente elogiado pela crítica. Já o EP “Voice of Bunbon, Vol. 1” foi indicado ao Grammy de 2022 na categoria Melhor Álbum de Música Global.
Em um contexto global marcado por divisões, a música de Rocky Dawuni se destaca como uma mensagem de unidade, conexão e humanidade compartilhada.
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Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
