Melodica Vibezz: duas melódicas, dub e cultura sound system na ponte entre Brasil e Uruguai
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A escaleta – também chamada de melódica – é um instrumento que tem grande importância no reggae, tendo entre seus principais expoentes o mestre jamaicano Augustus Pablo. E esse instrumento deu origem, em 2016, no Rio de Janeiro, ao Melodica Vibezz. Formado por Lutxi Luh e Rodrigo Dread, o projeto nasceu sem um plano definido de criação de uma banda. A princípio, havia apenas a vontade de tocar juntos e experimentar as possibilidades do instrumento dentro do reggae e do dub.
“O Melodica Vibezz nasceu no Rio de Janeiro, em 2016, a partir de um encontro muito espontâneo entre nós dois: tocávamos melódica e simplesmente gostávamos de tocar juntos. Naquele momento, não havia um plano definido de criar uma banda; era, antes de tudo, uma vontade de tocar, experimentar e compartilhar música”, conta Lutxi.
Rodrigo já trazia uma trajetória com o projeto carioca DubAtaque, fundado em 2011. Depois do encerramento do grupo, começou a desenvolver um projeto solo e passou a receber convites para tocar em eventos, festas, sound systems e apresentações ligadas à cena reggae do Rio. O repertório reunia composições próprias e bases instrumentais de dub, criando espaço para improvisações e freestyle.
O projeto ganhou outra dimensão quando, no home studio do músico Vitor Constant, os dois passaram a experimentar MPC, sintetizadores, percussões, tambores nyabinghi e outros recursos eletrônicos. A música eletrônica entrou nesse processo junto à pesquisa sobre o dub contemporâneo e a cultura sound system.
Foi também nesse período que Lutxi começou a atuar como seletora, ampliando a relação do projeto com a seleção musical e a performance ao vivo. A combinação entre as duas melódicas, riddims, improvisação, produção eletrônica e percussão acabou estabelecendo a base da identidade do Melodica Vibezz.
A melódica como protagonista
Dentro do reggae e do dub, a melódica ganhou uma linguagem própria principalmente a partir da contribuição de Augustus Pablo. Para o Melodica Vibezz, o instrumento ocupa um papel central justamente por sua capacidade de assumir diferentes funções dentro da música.
“Para nós, a melódica é como uma voz. Ela pode ocupar o lugar principal na música e, justamente por isso, dar personalidade e identidade ao som. No Melodica Vibezz, usamos as duas melódicas como protagonistas, tanto nas nossas versões instrumentais quanto nas composições próprias”, explica Lutxi.
A presença de dois instrumentos permite criar diálogos entre as melodias, além de abrir espaço para harmonias e improvisações. A influência de Augustus Pablo aparece como uma referência importante para essa pesquisa, especialmente por ter ajudado a consolidar a melódica como parte da linguagem do reggae jamaicano.
Há ainda uma característica técnica que interessa ao duo. A melódica combina a respiração e a dinâmica de um instrumento de sopro com as possibilidades melódicas de um teclado. Dependendo da forma como é utilizada, pode assumir funções melódicas, harmônicas e até rítmicas, e é justamente essa amplitude que o Melodica Vibezz segue explorando e investigando.

Improvisação como parte da identidade
A improvisação nunca deixou de fazer parte do projeto. Mesmo com músicas mais elaboradas e preparadas durante os ensaios, os integrantes mantêm espaço para acontecimentos inesperados durante as apresentações.
“Cada apresentação mantém uma margem de liberdade, e isso é parte essencial da nossa identidade”, afirma Rodrigo Dread.
O aprofundamento em teoria musical, produção e tecnologia também ampliou as possibilidades do duo. Com mais ferramentas para estruturar as composições, os músicos conseguem trabalhar com beats, baixos, melodias, arranjos e efeitos sem abrir mão da liberdade característica dos primeiros trabalhos.
Atualmente, um dos focos está no desenvolvimento de um live set mais imersivo, com uso de delays, reverbs e diferentes recursos eletrônicos. A ideia é concentrar essa estrutura em apenas duas pessoas, tornando o espetáculo mais versátil e facilitando sua circulação.
As colaborações também fazem parte desse processo. Outros músicos e artistas são convidados a participar das produções, fazendo com que cada encontro resulte em novas possibilidades de arranjo, versão e interpretação.
“Cada encontro transforma a música e, por isso, nenhum show é exatamente igual ao outro: sempre existe espaço para novas versões, improvisações e surpresas”, diz Rodrigo.
Do palco para as caixas: a criação do Melodica Vibezz Sound System
A relação do duo com a cultura sound system ganhou uma dimensão prática em Montevidéu, onde Lutxi e Rodrigo moram e passaram a construir e operar seu próprio sistema de som.
A história começou durante a pandemia, em 2020. Rodrigo, que trabalhava como cozinheiro e era conhecido por suas esfihas veganas, trocou alimentos por alguns equipamentos que acabariam fazendo parte do primeiro sound system do projeto.
A estreia aconteceu no bairro Jacinto Vera, na capital uruguaia, em uma festa criada para arrecadar alimentos para uma “olla popular”, o sopão solidário organizado durante a pandemia. A construção do sistema envolveu reparos e adaptações, além da colaboração de integrantes da cena local, como Pavlo, do Dinamita Sound System, e Leo, do Pantera Sound System.

A experiência mudou também a maneira como os dois pensam suas próprias músicas. “Ter nosso próprio sistema nos permite testar nossas produções diretamente nos graves, subgraves e diferentes frequências, influenciando nossas decisões de composição, arranjo e mixagem”, explica Lutxi.
O sound system também passou a fazer parte da identidade visual do projeto. As caixas receberam intervenções com elementos associados ao Melodica Vibezz, como as duas melódicas e os fogos pixelados, em colaboração com o grafiteiro Skunk.
“Mais do que construir caixas de som, construir um sound system transformou nossa maneira de pensar a performance: ela deixa de acontecer apenas em um palco e passa a ser também a criação de um espaço de encontro e compartilhamento no espaço público”, afirma Lutxi.
Autonomia na cultura sound system
A possibilidade de produzir música, organizar encontros e fazer o próprio trabalho circular está diretamente ligada à forma como o duo entende a cultura Sound System.
Para Rodrigo e Lutxi, autonomia, liberdade e expressão são elementos centrais dessa cultura, especialmente para artistas independentes que buscam construir seus próprios caminhos de produção e circulação.
Ao mesmo tempo, o duo reconhece a importância das plataformas digitais para ampliar o alcance do trabalho. A questão está em estabelecer essa relação sem deixar que as exigências do mercado determinem a identidade do projeto.
“Os bailes e os encontros locais de sound system atualmente são uma prioridade para nós. São espaços onde podemos criar e compartilhar música sem a mesma pressão do mercado, mantendo uma dimensão de liberdade, expressão pessoal e encontro coletivo que queremos preservar”, afirma Rodrigo.
Nesse sentido, a autogestão não aparece apenas como uma forma de administrar o projeto, mas como parte da própria maneira de fazer música.
Uma ponte entre Brasil e Uruguai
A trajetória do Melodica Vibezz também acompanha a circulação entre as cenas de reggae, dub e Sound System do Brasil e do Uruguai.
Em Montevidéu, o duo já recebeu artistas e coletivos brasileiros, como Tutti, do Tuti Sound System, a cantora Marietta, e o selector Bigatti, do Attack Sistema de Som. Também houve colaboração com Bandoch MC, ligado à cena de rub-a-dub e ragga do Rio Grande do Sul.
A circulação acontece nos dois sentidos. Brasileiros que vivem no Uruguai também participam da cena local, criando novas conexões entre os dois países.
Para Lutxi, a experiência brasileira teve papel importante em sua formação artística. “Para mim, o Brasil foi uma grande escola. Foi onde tive contato mais profundo com a cultura reggae, dub e Sound System, e onde também conheci experiências que foram muito importantes para meu desenvolvimento como artista”, conta. A experiência da artista com o coletivo brasileiro Feminine Hi-Fi aparece como uma referência nesse percurso, especialmente pela força de uma cena construída por mulheres.
As diferenças entre os dois países também ajudam a criar oportunidades de intercâmbio. Enquanto o Brasil possui uma cena maior e mais consolidada, com uma diversidade ampla de sound systems, artistas e coletivos, o Uruguai apresenta uma estrutura menor e relações mais diretas entre artistas, coletivos e público.
“São contextos diferentes, mas justamente por isso existe muito espaço para troca e aprendizado entre os dois países”, avalia Lutxi.
Essa conexão continua por meio das colaborações. Recentemente, o Melodica Vibezz lançou uma música com a artista Mya Akoma, de São Paulo, e mantém outras parcerias com artistas brasileiros em produção.
Uma rede latinoamericana em expansão
A circulação do duo também se conecta a uma percepção mais ampla sobre a cultura Sound System na América Latina. “Não estamos por dentro de todas as cenas que existem hoje na América Latina, mas temos contato com artistas e coletivos da Argentina, Peru, México e outros países, e percebemos que existe uma cena latino-americana de Sound System que já tem uma história própria e vem se fortalecendo há muitos anos”, ressalta Lutxi. O destaque também está para a presença de mulheres na construção dessas cenas, especialmente no México.
Para o Melodica Vibezz, o Brasil continua sendo uma referência direta, mas a América Latina vem desenvolvendo características próprias a partir das diferentes realidades culturais e musicais de cada país.
“Talvez o que mais nos conecte seja justamente essa paixão pela cultura, pela música e pela ideia de comunidade e irmandade que existe dentro do Sound System. Essa rede latino-americana já está muito viva e continua crescendo através dos encontros, das colaborações e da circulação de artistas e músicas”, afirma a artista.
Novas produções a caminho
O lançamento mais recente do Melodica Vibezz é “O Que É Meu Vem”, produção do duo com vocais de Mya Akoma. A faixa foi lançada pelo selo Pamplona Beats e mixada e masterizada por Mateus Pinguim.
Para os próximos trabalhos, o grupo prepara um EP instrumental que retoma uma das características centrais de sua formação: as duas melódicas como protagonistas dentro do universo do dub.
A produção deve reunir influências de reggae digital e roots com riddims autorais. Paralelamente, cerca de 15 músicas estão em diferentes estágios de produção, muitas delas construídas em colaboração com cantores e artistas de diferentes países.
A quantidade de material em desenvolvimento acompanha a intenção de ampliar a rede de colaborações e continuar expandindo a linguagem do projeto.
Mesmo depois de mais de uma década de trajetória, o Melodica Vibezz não parece interessado em cristalizar uma fórmula. O foco atual está justamente em aprofundar as possibilidades abertas pelo encontro entre melódica, dub, tecnologia e improvisação.
“Depois de mais de uma década, ainda temos muita curiosidade em continuar aprendendo e aprofundando nossa prática musical. Queremos seguir estudando os instrumentos, a produção e as novas tecnologias, e neste momento nosso principal foco é desenvolver o live dub e nosso live set, explorando efeitos, ambiências, improvisação, novas vozes e colaborações”, afirma Lutxi.
A pesquisa também ultrapassa a música. O duo já experimentou trabalhar com visuais, projeções, figurinos, adereços tecnológicos e iluminação e pretende continuar desenvolvendo essa dimensão do projeto.
Ao mesmo tempo, existe o desejo de ampliar a circulação do Melodica Vibezz Sound System pelos espaços e regiões de Montevidéu e retomar a circulação internacional, começando pelo Brasil.
“No fundo, queremos descobrir até onde podemos levar a linguagem que construímos, continuando a aprender, experimentar e criar novas conexões”, conclui Rodrigo.
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Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
