Sistah Mari transforma evolução e resistência em “Ascender”, segundo álbum da carreira

Sistah Mari _ Foto por Miguel Salvatore 2

Sistah Mari | Foto por Miguel Salvatore

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Cantora, compositora e produtora, Sistah Mari nasceu e foi criada na Zona Leste de São Paulo e construiu sua trajetória entre o reggae, o dancehall e a cultura sound system. Em 2023, lançou seu primeiro álbum solo, “Evoluir”, e agora apresenta “Ascender”, segundo capítulo de uma trilogia conceitual dedicada à evolução e à resistência no reggae.

Para a artista, a passagem de um disco ao outro está diretamente ligada ao próprio amadurecimento. O novo trabalho representa uma etapa de consolidação de sua identidade não apenas como cantora e compositora, mas também como produtora.

“O caminho entre o meu primeiro e segundo álbum representa, acima de tudo, o meu próprio amadurecimento. Esse processo consolidou a construção de uma trilogia conceitual que venho desenvolvendo, totalmente focada na evolução e na resistência dentro do reggae nacional. Olhar essa mudança me revelou que a minha trajetória é feita de passos firmes: passei a me entender ainda mais como cantora, compositora e produtora da minha própria identidade, transformando minhas vivências paulistanas em um manifesto de fortalecimento e conexão espiritual e política. Sendo assim me mudou e moldou.”

O próprio título do álbum concentra uma das ideias centrais do projeto. Para Sistah Mari, ascender está relacionado a ocupar espaços, enquanto acender significa lançar luz sobre realidades que permanecem invisibilizadas.

“Percebi essa conexão logo no início: entendi que crescer só faz sentido se for para jogar luz nas nossas realidades. A brincadeira com o nome é o coração do projeto: ascender é ocupar espaços de direito, e acender é iluminar as questões da periferia que tentam apagar. O álbum é conduzido por essa dualidade porque a minha evolução só está completa se for um manifesto de transformação social. É subir abrindo caminhos e acender a mente do público, provando que o nosso brilho também é luta.”

 

 

O conceito também está na maneira como o álbum foi construído. Sistah Mari conta que já chegou ao estúdio com letras e melodias definidas e que assumir a produção exigiu, ao mesmo tempo, controle sobre sua visão e abertura para o trabalho coletivo.

“Entrar no estúdio com tudo pronto na cabeça exigiu desapego, mas assumir a produção ao lado de Ras Lillo e Piroupo, com mix/master de Rodrigo Loli e os arranjos adicionais, garantiu minha assinatura em cada detalhe. O maior desafio foi traduzir minha visão rigorosa em uma construção coletiva com quem caminha comigo de verdade. Isso envolveu desde a produção do meu primo Alex Vizzate em ‘Leoa Sedenta’, até a energia do meu time de músicos: Edgard Tacconi (digital drum), Fabio Piruka (guitarra), Gabriel Ruffo (teclado) e Denise de Paula (backings). Estar na linha de frente foi um processo de liderança e respeito, onde amarrei o conceito do início ao fim com a minha verdadeira identidade.”

“Ascender” percorre temas como luto, amor, desejo, empoderamento, identidade e racismo, ao mesmo tempo em que transita por diferentes vertentes musicais. A unidade, para a artista, está justamente na experiência que conecta todos esses assuntos: a de uma mulher negra e periférica.

“Esse álbum vem lá do fundo do coração, do sonho realizado, do fato de que tudo atravessa o mesmo corpo: o de uma mulher negra e periférica. Na minha pele, o amor, o luto, o racismo e o desejo não são gavetas separadas; eles acontecem ao mesmo tempo, na mesma rotina. A costura final do álbum é a minha própria história. Não há quebra de conceito porque todas essas sonoridades e assuntos fazem parte da mesma jornada de ascensão: a gente faz a revolução na mente, na pista e na cama.”

Essa relação entre território e música aparece também na maneira como Sistah Mari define sua identidade artística. Ela afirma que a experiência periférica da cidade é uma das bases do seu trabalho.

“Minha essência é a Zona Leste de São Paulo e a urgência do asfalto. Minha intenção foi explorar a música periférica em sua totalidade, misturando dub, steppa, roots, Lovers Rock e cumbia. Meu reggae tem a crueza do rap de SP e o peso do sound system de quebrada. A Zona Leste me ensinou que a arte é ferramenta política e entretenimento de alta qualidade: música para fazer o público rebolar, mas com a mão na consciência, mostrando que podemos dançar e celebrar enquanto fazemos a revolução.”

“Música para você rebolar, mas com a mão na consciência”

Para quem ainda não conhece seu trabalho, Sistah Mari define “Ascender” a partir dessa combinação entre música, território, reflexão e dança.

“Se você está chegando agora, seja muito bem-vindo. O que você vai encontrar em ‘Ascender’ não é apenas reggae, mas um pedaço real da minha história e da urgência das ruas de São Paulo. Dê o play sem barreiras. Minha música traz cultura, informação e reflexão sobre a nossa realidade através da crueza da periferia e do peso do sound system, mas sem perder o balanço e a sensualidade. É um som feito para acolher e libertar. Em resumo: é música para você rebolar, mas com a mão na consciência. Espero que o meu brilho acenda algo forte aí dentro de você.”

O disco foi ao ar nas principais plataformas em 25 de setembro e conta com versão física em CD. Agora, a artista pretende levar o repertório aos palcos.

“Os planos pós-lançamento estão focados em levar essa energia forte de Ascender para os palcos, sentindo o calor do público bem de perto. A circulação do show já está na rua e os próximos encontros confirmados em São Paulo são: 10 de outubro na Okupação Cultural Coragem: um espaço que respira resistência e cultura comunitária na Zona Leste, perfeito para celebrar de onde eu vim. E no dia 28 de outubro na Galeria Olido: um palco tradicional no centro da cidade, fortalecendo a ocupação dos espaços públicos com o peso do reggae e do dancehall.”

Sistah Mari amplia a discussão para os bastidores da produção musical e para o lugar ocupado por mulheres negras na cena reggae e destaca o trabalho que realizou também nas funções de composição, produção e direção.

“Quero aproveitar este espaço para reforçar algo crucial sobre os bastidores: este disco é a prova viva de que as mulheres negras não são apenas as vozes do reggae, mas as mentes pensantes e técnicas por trás dele. Ainda é muito comum ver mulheres ocupando apenas o lugar de backing vocal ou de intérpretes de músicas escritas e produzidas por homens. Em Ascender, eu fiz questão de assinar composições, produzir faixas e assumir a direção. Nós dominamos a técnica, operamos o Sound System, escolhemos os timbres de baixo e encabeçamos a estratégia de distribuição. Ocupar esse papel de liderança técnica no estúdio é, por si só, um ato de revolução política no reggae nacional.”

 

Ouça Ascender:

 

 

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