Pindaíba Sound System: Daniel Juca retrata os perrengues do sound system em novo livro
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Há mais de duas décadas, o cartunista, designer gráfico, produtor cultural e DJ Daniel Juca circula pelos universos dos quadrinhos e da música. De um lado, a produção independente, os fanzines, o desenho. Do outro, o reggae, o vinil, as festas e a cultura sound system. No meio disso, uma mesma lógica que atravessa os dois caminhos: fazer acontecer com os recursos disponíveis e continuar fazendo mesmo quando as condições não são exatamente favoráveis.
A história começou nos anos 90. “Quando eu era um jovem do punk hardcore não sabia tocar instrumentos para poder formar uma banda, então acabei entrando nessa de fazer fanzine a fim de me envolver na cena de alguma forma e de quebra ganhar fitas demos e entrar de graça em shows. Acabei fazendo muitos amigos”, conta.

Seu primeiro fanzine foi o Hc Pra Mim Pra Você. Depois veio o Motivo de Chacota, já mais focado nos quadrinhos. Em 2004, Daniel se juntou ao jornalista Matias Maxx para criar a revista independente Tarja Preta, que teve sete edições até 2011 e que segue viva em versão online. Vieram também o documentário de longa-metragem Malditos Cartunistas, realizado em parceria com Daniel Paiva, em 2011, que posteriormente virou série no Canal Brasil, e o livro Magnéticos 90, com Gabriel Thomaz, lançado em 2016.
Foi também nos anos 2000 que a música passou a ocupar um espaço cada vez maior em sua trajetória. Daniel começou a discotecar por volta de 2004, inicialmente com CDs, passando por big bands, swing jazz, rockabilly, mambo e ska. Dois anos depois, por conta justamente do ska, chegou ao Bangarang Sound System, coletivo e sound system carioca dedicado à fase oldies da música jamaicana contemporânea.
E é dessa longa convivência com a música jamaicana, o vinil e a cultura sound system que nasce Pindaíba Sound System, projeto que transforma em quadrinhos algumas das alegrias, contradições e, principalmente, dos perrengues de quem insiste em fazer uma cena independente acontecer.

Duas décadas atrás das caixas
Por conta do ska, em 2006, um amigo em comum apresentou Daniel a Lívio Santos, que o convidou para ser DJ na terceira edição da festa Bangarang. O convite pontual acabou se transformando em uma relação de duas décadas.
Depois, a entrada de Léo Flores, que também era ligado ao projeto Dub Ataque, trouxe para o Bangarang uma aproximação maior com a cultura sound system e com o vinil. Ao longo dos anos, passaram a se concentrar mais nos chamados oldies, como ska, rocksteady, early reggae, atravessando diferentes momentos e mantendo-se ativo até hoje. “Já se foram 20 anos, passando por altos e baixos seguindo resistindo e evitando o Movimento Reggae Desistência”, brinca.
Além do Bangarang, Daniel desenvolve outros projetos ligados à música. O Muito Doido Dub é um projeto de live P.A. realizado com o trompetista Daniel Paiva e o percussionista Marcello Hadj, no qual ele trabalha com bases e samples inusitados em vinil. Já a festa Jamaica Express é dedicada a reggae moderno que não encontra espaço no repertório do Bangarang. Há ainda a Bolacharia, proposta mais aberta, em que a única regra é a música estar em vinil, passando por música brasileira e latina, soul, rap, grooves, beats, remixes e outras “doideiras”, segundo ele.
O mesmo “voto de pobreza”
A experiência de estar dos dois lados, produzindo música e quadrinhos, também aproximou essas atividades no olhar de Daniel. “Além do voto de pobreza comum às duas profissões, DJ e quadrinista, acho que é sobre fazer algo que ama e está disposto a continuar independente das adversidades. Parece até que certas coisas não se escolhe fazer, a desgraça que te escolhe hehe”, diz.
É dessa percepção que nasce Pindaíba Sound System. A história se passa em uma metrópole não especificada e acompanha um coletivo de reggae music ainda no começo da carreira. O grupo é formado pelo DJ/seletor Bruno “Selecta Difícil” e pelos MCs Frederico “Ras Tazana” e Marcelo “Mc Midão”. Cada um encontra uma maneira diferente de lidar com a falta de dinheiro: um trabalha, outro rouba e o terceiro pede, e como diz Daniel, “nem precisa dizer quem mais se fode”.
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A situação pode parecer específica, mas, para o quadrinista, ela parte de uma experiência bastante familiar para quem circula por cenas musicais independentes. “Esse projeto veio de uma ideia antiga, misturando duas paixões: quadrinhos e reggae”, explica. “Sendo participante desse cenário musical há duas décadas, como integrante do Bangarang, entendo bem de perto as alegrias e os perrengues.”
No universo do Pindaíba Sound System, o reggae funciona como pano de fundo para falar de uma condição mais ampla da produção cultural independente: fazer muito com poucos recursos.

“Por ser uma cultura underground na essência, onde o ‘por amor’ e o trabalho se conflitam e onde o investimento financeiro é raramente recuperado. Qualquer consultor de economia vai dizer que é furada e pra você sair dessa. Apesar do pano de fundo ser a música jamaicana, poderia ser qualquer estilo musical nichado em que os recursos são limitados, o que atrapalha mas não impede de se fazer o que gosta”.
O humor como ferramenta
O humor é parte central do projeto e também da própria maneira como Daniel observa o mundo. “O humor é totalmente presente na minha vida por ser um traço marcante da minha personalidade meio babaca haha”, afirma. “Quase tudo que vejo ou que acontece ao meu redor eu sou capaz de fazer alguma piada a respeito, mesmo sendo reclamações. Mau humor também é humor.”
No Pindaíba, essa característica permite abordar as dificuldades de quem tenta organizar festas, tocar, montar um sound system e fazer uma cena acontecer sem transformar essas questões em um discurso pesado.
A primeira publicação acompanha os personagens ainda afastados da cena local, em contato com familiares, colegas de trabalho e pessoas que não conhecem ou não se interessam por reggae. A ideia, porém, é que a história avance. Daniel já pensa em pelo menos mais três livros, nos quais os personagens começam a se relacionar com a cena e novos personagens passam a aparecer, trazendo outras questões relacionadas à produção de festas e sound systems.
Do Instagram para o papel
O Pindaíba Sound System começou a ser desenvolvido durante a pandemia e nasceu com uma estratégia bastante ligada ao presente: publicar as tiras e cartuns no perfil do Pilha Errada no Instagram e, depois, reunir o material em um livro.
Pilha Errada que, aliás, também tem uma história anterior. Criada em 2004 como uma série de tiras e cartuns para a revista Tarja Preta, passou pelo formato de blog e hoje existe como perfil no Instagram. Parte do material nasceu de frases e situações que Daniel vivenciava no freestyle e conseguia lembrar posteriormente para transformar em desenho.
Durante a pandemia, o projeto teve uma produção diária intensa. O livro que deveria ter surgido dessa trajetória acabou não acontecendo. “Era pra ter saído um livro, mas por motivos de procrastinação e HDs externos perdidos não rolou. Tô pensando em fazer um livro sobre esse não livro um dia.”
Com o Pindaíba, porém, o livro finalmente saiu do plano. Daniel estabeleceu uma parceria com a produtora paulistana Ervas Daninhas, e o projeto foi contemplado pelo Edital de Fomento à Linguagem de Cultura Reggae/Rastafari da Prefeitura de São Paulo.
O resultado reúne tiras, cartuns, uma história de 64 páginas sobre como se faz um baile e uma introdução realizada em parceria com Gorilla Zen, que apresenta a história do reggae e do sound system em uma abordagem mais documental e jornalística.

O lançamento oficial de Pindaíba Sound System acontece em 4 de setembro, sexta-feira, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.
Nos dias seguintes, Daniel passa por outros espaços da capital paulista, como Disco Attack, Ugra Press, Fatiado Discos, Casa Sements e Patuá Discos. No Rio de Janeiro, o lançamento acontece em 17 de setembro, no Sebo Baratos da Ribeiro, seguido por uma festa de lançamento no dia 18 de setembro, junto ao Bangarang, que comemora 20 anos no Motocerva. Outras datas em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades ainda estão sendo definidas.

O livro está em pré-venda até 1º de setembro, pelo site pilhaerrada.com.br, por R$ 50. Também há opções de combos, incluindo livro com caricatura exclusiva, além de três alternativas de frete e possibilidade de retirada em mãos nos eventos de São Paulo e Rio de Janeiro.
Pindaíba Sound System nasce, portanto, de uma experiência que Daniel conhece há bastante tempo: a de continuar fazendo porque fazer é, muitas vezes, a própria razão de continuar. Ou, como ele mesmo resume, seguindo a velha lógica da cultura independente: “Faça você mesmo, mesmo que fique uma merda.”
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Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
