Bar do Super Minas: como uma lanchonete de campo de várzea virou referência na cultura sound system em SP
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Na sede do Atlético Super Minas, em Osasco, região metropolitana da capital paulista, o bar que funciona junto ao campo de futebol de várzea ganhou, ao longo dos últimos anos, uma função que vai além do atendimento ao público. O espaço se tornou um dos pontos de encontro da cultura sound system na cidade, recebendo festas, artistas, DJs e coletivos ligados ao reggae e ao dancehall. “A história começou antes mesmo de o bar assumir o formato atual, quando as festas eram realizadas ao lado do campo, com uma estrutura improvisada de isopor e tenda”, conta Bruno Kami, administrador e programador do espaço.
Foi nesse período, entre 2013 e 2014, que o cantor Emcee Lê, irmão de Kami, e o coletivo More Fya Club, fundado em Osasco por Lê, realizaram a primeira festa de sound system no local, durante a comemoração do aniversário de Nanre, integrante do coletivo. “O baile ganhou repercussão nas redes sociais também pelas fotografias feitas por Janaína Givs, fotógrafa e nossa irmã mais nova, que faleceu em 2023. O público começou a se vestir bem para sair bonito nas fotos feitas por ela”, relembra Bruno.
Em 2017, Kami assumiu a administração da lanchonete do campo e transformou o espaço em um bar voltado também à realização dos eventos do More Fya Club. Desde então, a programação passou a ser construída em parceria com Emcee Lê e uma rede de colaboradores e voluntários que, segundo Kami, ajudaram a formar a história do lugar.

“O bar conta com muitos colaboradores e voluntários que fazem parte da história, como Smurf, Ícaro, André, Goretti, Caju, Raquel, 8G, Pijama e Airton, entre outras pessoas que passaram pelo espaço”.
A programação, porém, não se resume ao reggae. O bar funciona durante toda a semana e recebe outras atividades esportivas e culturais, além das festas ligadas à música jamaicana. E foi dessa junção entre o cotidiano do campo, a vida comunitária e a programação cultural que o Super Minas construiu sua identidade.
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Para Kami, um dos momentos decisivos dessa trajetória aconteceu logo na primeira festa. “A primeira festa foi mágica pra mim, quando eu vi meus irmãos mais novos e seus amigos curtindo reggae no vinil”, lembra.
Desde então, foram centenas de eventos e, na avaliação de Kami, praticamente todos os nomes importantes da cena de sound system passaram pelo espaço, e ele destaca aqueles que acreditaram no projeto desde o início. “Os mais importantes são os primeiros que acreditaram no projeto”, diz.
O público também foi se transformando. Se no começo as festas reuniam principalmente pessoas já próximas da cultura reggae, hoje Kami percebe a presença de uma geração mais jovem. “As crianças começaram a ouvir reggae e a nova geração está aí”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele vê uma cena local pequena, criativa, mas que ainda enfrenta dificuldades para ampliar seu público. “Há muito preconceito ainda com o reggae”, diz. Na percepção do responsável pelo espaço, parte da nova geração também se aproxima mais do dancehall do que do reggae tradicional, movimento que ajudou a ampliar as possibilidades de programação do Super Minas.
A relação com o público da região é, para Kami, um dos principais motivos para manter a programação. O espaço criou uma audiência própria, que acompanha a curadoria e se dispõe a conhecer artistas mesmo quando não tem contato prévio com seus trabalhos. “Sem espaço para apresentação não tem como formar público para shows”, afirma. Segundo ele, os frequentadores já incorporaram a programação cultural à rotina. “O público da região já se alimenta de cultura e não conseguem mais ficar sem.”
Essa relação também aparece em uma das histórias que ficaram marcadas na trajetória do espaço: a visita do cantor e compositor Seu Jorge a uma das noites de baile. Convidado por Emcee Lê, o artista esteve no Super Minas com a família para conhecer o movimento. Não cantou, mas sua presença acabou se tornando parte da memória do lugar. “A presença dele no local é falada até hoje”, conta Kami.
Manter essa programação, no entanto, está longe de ser simples. A principal dificuldade é financeira. O bar é a principal fonte de renda utilizada para sustentar as atividades, mas o consumo nem sempre é suficiente para cobrir os custos de realização dos eventos. As tentativas de mobilização por meio de vaquinhas virtuais, couvert artístico e rifas também encontram dificuldades para arrecadar recursos.
“É muito difícil fazer cultura de forma independente”, afirma Kami. “Toda nossa renda vem da venda do bar e são poucos que consomem no bar, é sempre uma luta.”
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A continuidade da programação depende, em boa medida, da própria rede construída ao longo dos anos. Artistas que conhecem a trajetória do espaço ajudam a viabilizar as noites e fazem o possível para manter os eventos acontecendo. É essa dimensão coletiva que, segundo Kami, explica por que o trabalho continua.
“O instinto coletivo, a música é alimento pra alma e muitos que se alimentam do que faço, me dão forças para continuar nessa odisseia.”
O próximo passo imaginado por ele é ampliar ainda mais a função cultural do espaço. A ideia é transformar o Super Minas em um ponto de cultura, com oficinas e atividades voltadas à formação musical, incluindo o ensino de instrumentos e a criação de música.
Enquanto isso, a programação segue dividida entre diferentes frentes e, além de festas variadas e pontuais, o espaço tem uma programação fixa semanal dedicada ao reggae. Às quintas-feiras, a Quinta Fya reúne o sound system MUC Sound e um convidado; aos sábados, o More Fya Club promove festas com equipes convidadas e sistemas de som full power. No período de Carnaval, o espaço também recebe o Carnareggae – Bloco do More Fya, e programações especiais conectando as festividades com a linguagem do dancehall e do sound system.
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Entre o futebol de várzea, o bar e as caixas de som, o Super Minas consolidou uma experiência particular na cena de Osasco: um espaço que nasceu de uma estrutura esportiva comunitária e passou a abrigar também uma parte importante da vida musical da cidade. Para Kami, essa trajetória já colocou Osasco no circuito da cultura sound system e ainda pode abrir espaço para uma nova etapa, em que o bar funcione não apenas como local de festas, mas também como espaço permanente de formação e produção cultural.
O Bar do Super Minas fica na Avenida Joichi Yamaji, 600, Metalúrgicos, Osasco, São Paulo. Para acompanhar a programação, acesse o Instagram.

Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
