Strictly Dub: o álbum fundamental que marca a transição de King (então Prince) Jammy do dub para o dancehall

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Nascido em Kingston, Lloyd James ficou famoso por ter dominado o dancehall dos anos 1980 como King Jammy, produtor e proprietário de sound system. Porém, antes de sua coroação, Jammy era conhecido como “Prince” e reconhecido como produtor e engenheiro de dub discípulo de King Tubby.

“Strictly Dub” é um obscuro álbum de dub que foi lançado em 1981 pelo selo Jammys Records e é considerado uma obra-prima do estilo de mixagem de Jammy. Naquela época, o dancehall ainda estava começando a ganhar força após os momentos de popularidade mais ampla do dub.

Jammy começou sua trajetória musical construindo amplificadores para sound systems. A grande quantidade de equipes de som espalhadas pela Jamaica representava uma importante fonte de renda por meio de serviços de reparo e da fabricação de equipamentos especializados. Morador de Waterhouse, bairro localizado em Kingston, rapidamente conquistou reconhecimento como fabricante de equipamentos e, pouco tempo depois, passou a comandar seu próprio sound system.

 

 

No início dos anos 1970, Jammy vivia no Canadá. Durante uma viagem de férias à Jamaica, ocorreu o episódio que mudaria sua vida: Bunny “Striker” Lee o convenceu a assumir uma função como principal engenheiro de King Tubby. Phillip Smart, que ocupava o cargo na época, estava prestes a emigrar para Nova York.

Jammy tornou-se então o braço direito de Tubby na jamaicana Dromilly Avenue. Trabalhar no estúdio de Tubby significava estar no centro da crescente indústria jamaicana do reggae, e não demorou muito para que Jammy começasse a desenvolver sua própria carreira.

 

De príncipe a rei: a transição para o dancehall

O trabalho de Jammy como produtor e engenheiro de mixagem começou com a formação original, ainda composta apenas por homens, do grupo Black Uhuru. Com eles, lançou o álbum de estreia Love Crisis e um disco de dub chamado Jammys In Lion Style Dub, ambos de 1977. Faixas como a versão de Black Uhuru para Natural Mystic, de Bob Marley, e a própria African Love (ambas lançadas pelo selo Jammys) ajudaram a colocar o grupo no mapa do reggae. Posteriormente, uma mudança na formação e a nova parceria com Sly & Robbie fariam do Black Uhuru o próximo grande nome do reggae a alcançar sucesso internacional.

O final dos anos 1970 foi marcado pela predominância dos ritmos “rockers” e “steppers”, sustentados por uma bateria intensa e marcante. Bob Marley havia projetado o reggae para além das fronteiras jamaicanas, alcançando sucesso nas paradas internacionais. Na Jamaica, porém, o ritmo começou a desacelerar ao longo da década e a adquirir uma precisão rítmica que abriria caminho para o reggae computadorizado que ganharia força nos anos 1980.

As transformações não se restringiam à música. Nas letras, o foco deixava de estar voltado às grandes aspirações espirituais e políticas de alcance global para se concentrar em temas mais ligados ao cotidiano e à realidade dos bairros populares de Kingston.

Não surpreende, portanto, que dessas transformações nos estilos “rockers” e “steppers” tenha surgido uma nova estética dancehall, e que Prince Jammy estivesse na linha de frente dessa mudança musical. Seu trabalho de mixagem em In The Light Dub, de Horace Andy, e Slum Dub, de Gregory Isaacs, consolidou sua reputação pela clareza e precisão de sua técnica.

 

O início de uma nova era musical com um olhar voltado para os riddims clássicos

Strictly Dub é um álbum de dub totalmente instrumental, sem vocais nem mesmo fragmentos de vozes. As mixagens são cuidadosamente construídas e permitem que os riddims originais dominem a experiência, com pouquíssimas interrupções rítmicas, um recurso muito apreciado nas mixagens do final dos anos 1970.

O disco marca um afastamento dos floreios expansivos característicos do estilo de King Tubby em direção a uma abordagem mais controlada e quase minimalista de mixagem. Jammy produziu, arranjou e mixou este álbum utilizando alguns dos músicos de estúdio mais requisitados de Kingston. Entre eles, os instrumentistas de sopro Bobby Ellis e “Deadly” Hedley Bennett, que se destacam especialmente em faixas como Old Country Dub e 271 Utica Dub.

A lendária dupla de bateria e baixo formada por Sly Dunbar e Robbie Shakespeare também participa do projeto. Na época, eles desenvolviam seu próprio selo, Taxi, que viria a alcançar enorme sucesso no dancehall e a projetá-los internacionalmente, levando-os a trabalhar com uma ampla gama de artistas em todo o mundo, de Grace Jones a Bob Dylan.

O álbum apresenta diversas releituras de riddims clássicos do reggae, além de algumas composições originais. Immigrant Dub é uma versão do riddim conhecido como Bobby Bowa, utilizado pelo grupo Well, Pleased and Satisfied em Open The Gates Bobby Boy (Total Sounds, 1977). Basement Dub é uma releitura de um clássico da Studio One gravado por Bob & Marcia, Always Together (1969). Brooklyn Dub é uma releitura de Baba Boom, dos The Jamaicans (Treasure Isle, 1967).

 

Reedição autografada por King Jammys em 2018, quando ele esteve no Brasil na programação da exposição “Jamaica, Jamaica” (acervo Groovin Mood)

 

Uma das composições originais do álbum é B.Q.E. Dub, na qual a bateria característica de Noel Scully Simms ganha destaque. Interboro Dub é uma releitura do riddim Do It Right, dos Three Tops (Treasure Isle, 1967). Old Country Dub utiliza o riddim de Jah Fire Will Be Burning, de Hugh Mundell, uma produção de Jammy lançada em 1980. Na época, era uma faixa muito tocada por Jah Shaka, e os metais conduzem o dub de forma impressionante.

42nd Street Dub é a versão de Jammy para Shank I Shek, de Baba Brooks (King Edwards, 1964). Esse riddim voltou a se popularizar no início dos anos 1980, e o selo Zodiac, de Nal Rowe, lançou diversas versões dele, sendo Hard Times, do 7th Extension, a mais conhecida – e Mash You Down, na voz de Cornell Campbell, a preferida desta seletora que vos escreve.

271 Utica Dub apresenta Jammy reinterpretando o riddim College Rock (gravado por Big Willie para o selo Ironside, em 1972), com uma poderosa linha de metais marcando as pausas da batida.

Bronx Fashion Dub é a outra composição original do álbum e representa um sólido riddim de dancehall dub, com andamento bastante lento e uma aspereza sonora típica daquele período.

A faixa-título, Strictly Dub, fecha o álbum e mostra Jammy atualizando o clássico riddim Ali Baba (Treasure Isle, 1969), incorporando um som mais pesado, mas preservando a objetividade e a força do original.

Trata-se de um álbum que, apesar de marcar o início de uma nova era musical, mantém um olhar voltado para os riddims clássicos do final dos anos 1960 e início dos anos 1970.

 

Nova York, Jamaica, reggae e, no futuro, hip-hop

A nomenclatura das faixas revela que este álbum surgiu em Nova York, cidade que, durante os anos 1970, recebeu diversos músicos jamaicanos que a visitavam ou passaram a considerá-la seu lar.

Entre os mais conhecidos estavam Vincent e Pat Chin, fundadores da VP Records, gravadora que décadas mais tarde levaria Sean Paul e outros grandes nomes às paradas de sucesso internacionais. Outros nomes, como Lloyd Barnes e seu selo Wackies ajudariam a colocar Nova York no mapa do reggae com músicas que hoje são muito mais valorizadas do que eram quando foram originalmente lançadas.

Naturalmente, para o jamaicano expatriado Kool Herc, havia uma conexão musical que conquistou toda uma geração de afro-americanos, mas essa já é outra história.

A fotografia da capa mostra um jovem Prince Jammy diante da mesa de mixagem no estúdio de King Tubby, na Dromilly Avenue. Essa mesa foi vista por quem visitou a exposição “Jamaica, Jamaica”, do Musée de la Musique, que esteve em cartaz no Sesc 24 de Maio, na capital paulista, entre março e agosto de 2018. O próprio Jammy também esteve na programação da exposição, ministrando um workshop de dub ao vivo.

A mesa de mixagem havia pertencido originalmente ao Dynamic Studio, de Byron Lee. Tubby a adquiriu quando o estúdio passou por uma modernização de seus equipamentos. Foi com essa mesa que Tubby elevou o dub e a arte da mixagem a um novo patamar, transformando-os em uma forma artística por si só.

O álbum Strictly Dub teve circulação muito limitada e desapareceu rapidamente, ofuscado pela ascensão do dancehall e pela diminuição do interesse comercial pelo dub. Foram necessários quase trinta anos para que finalmente fosse relançado, em 2010. King Jammy, por sua vez, segue dominando o reggae desde meados dos anos 1980 até agora.

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