Yunnan Reggae: como grupos étnicos de uma região da China transformaram o som da Jamaica em identidade cultural
Bagedai (Foto: Divulgação)
.
A milhares de quilômetros do Caribe, nas montanhas do sudoeste da China, surgiu uma cena musical que encontrou no reggae uma forma de expressão cultural, resistência e pertencimento.
Na fronteira com Mianmar, Laos e Vietnã, a província de Yunnan reúne algumas das maiores diversidades étnicas da China. É nesse território de montanhas, florestas tropicais e paisagens de antigas plantações de chá, que são reconhecidas como Patrimônio Mundial da UNESCO, que floresceu um movimento musical singular, conhecido como Yunnan Reggae.
Relação entre China e Jamaica começa no século 19
A relação entre China e reggae é mais profunda do que muita gente imagina. A comunidade sino-jamaicana, estabelecida no Caribe desde o século XIX, teve participação fundamental na construção da indústria musical da ilha caribenha.
Entre os nomes que marcam essa história estão figuras como Byron Lee, músico e produtor que teve um papel crucial na popularização global da música jamaicana antes de o reggae ou o ska se tornarem internacionalmente conhecidos; Patricia Chin e Vincent “Randy” Chin, fundadores da icônica loja e selo Randy’s e da gravadora VP Records, e Clive Chin, filho do casal, que destacou-se como um dos produtores mais relevantes de sua geração; Leslie Kong, responsável pela criação do selo Beverly’s Records, produtor que descobriu Jimmy Cliff e Bob Marley, além de produzir alguns dos maiores sucessos dos The Maytals; e os irmãos JoJo, Ernest e Kenneth Hoo Kim, fundadores do Channel One Studios, um dos estúdios mais inovadores da Jamaica na década de 1970, responsável por redefinir o som do reggae naquele período; o produtor Bunny Lee, entre outros.
Chegada do reggae jamaicano à China
Durante as décadas de 1980 e 1990, a cena do rock se tornou um importante veículo para a difusão do reggae na China. Sua primeira aparição significativa na música chinesa é geralmente atribuída à canção Zhīhū Zhěyě (ouça logo abaixo), lançada em 1983 pelo roqueiro taiwanês Lo Ta-Yu.
Além disso, durante os anos 1990, muitos jovens tiveram acesso à música internacional através do fenômeno Dakou. Naquele período, toneladas de CDs e fitas excedentes foram enviadas de outros países do mundo para a China para reciclagem de plástico. As fábricas de origem das fitas cortavam a borda das mídias (a tradução literal de dakou é “cortar a boca/borda”) para garantir que não fossem revendidas. Porém, o corte nas bordas geralmente destruía apenas alguns segundos de áudio.
Isso permitiu que a juventude chinesa ouvisse rock ocidental, punk e música eletrônica, que eram fortemente censurados na época, o que se tornou um símbolo de contracultura e influenciou a criação de toda uma cena musical underground moderna na China. Foi por meio dessas gravações que artistas como Bob Marley, Peter Tosh e Burning Spear passaram a circular entre estudantes, músicos e colecionadores do país.
Em Yunnan essa influência encontrou um terreno fértil e assumiu características próprias. A região abriga dezenas de minorias étnicas, entre elas povos como os Wa, Bulang e Dai. Historicamente marginalizados e frequentemente retratados por estereótipos ligados ao isolamento geográfico, à pobreza e ao passado da região como rota de comércio de ópio, muitos desses grupos encontraram no reggae uma linguagem capaz de dialogar com suas próprias experiências.
Assim como o reggae nasceu na Jamaica como expressão de resistência, identidade e afirmação cultural, em Yunnan ele passou a representar uma forma de preservar tradições ancestrais em meio às rápidas transformações da China contemporânea.
Conheça alguns nomes do Yunnan Reggae
Kawa
Considerada uma das bandas mais importantes do reggae chinês, a Kawa é liderada por Laohan, conhecido como o “Bob Marley da China”. O grupo combina elementos do reggae jamaicano com línguas, instrumentos e referências culturais dos povos indígenas de Yunnan. Suas músicas falam sobre pertencimento, ancestralidade, respeito à terra e orgulho cultural, conectando as tradições locais.
Ao longo das últimas décadas, diversas bandas surgiram na região, ampliando os limites do que hoje entende-se como Yunnan Reggae.
Bagedai
Originário de Ximeng, um dos condados mais remotos da China e território histórico do povo Wa, o Bagedai é um dos grupos que melhor representa a fusão entre tradição e modernidade.
Os Wa possuem uma rica herança musical marcada por melodias únicas, forte presença da percussão e canções comunitárias transmitidas ao longo de gerações. O Bagedai trabalha transformando esse patrimônio em música contemporânea, incorporando elementos do reggae sem abrir mão de suas raízes.
Um dos melhores exemplos é “Nan Ai Er”, adaptação de uma canção tradicional do Condado Autônomo Wa. A faixa combina tambores, melodias tradicionais, flautas típicas da região e o som característico do instrumento conhecido como “Tak”, explorando também as possibilidades sonoras do reggae moderno.
Puman
Outro nome fundamental dessa cena é o Puman, frequentemente apontado como um dos pioneiros do chamado Yunnan Reggae.
Originária das regiões tropicais do extremo sul da China, a banda construiu sua identidade juntando melodias folclóricas, instrumentos tradicionais e, claro, o reggae.
Em “March Sixth”, o grupo revisita uma antiga canção popular das montanhas de Yunnan para narrar a história de uma jovem que se casa com um homem de uma família distante e passa a sofrer maus-tratos. O tema, recorrente em diferentes tradições folclóricas asiáticas, ganha uma nova interpretação.
Sandojo
Sandojo, grupo nomeado a partir de um gênero de canto e dança do sul da província de Yunnan, trouxe essa forma tradicional da cultura para o novo século.
Influenciado pelos ritmos do reggae e pelos estilos de performance de músicos africanos como Fela Kuti, o Sandojo combina ritmos modernos com os tambores tradicionais de Yunnan, formando seu próprio estilo musical. Ao mesmo tempo, o Sandojo adota a linguagem do dub para apresentar instrumentos e cantos tradicionais locais, com a ideia de transportar o público para as infinitas montanhas da região.
Wild Mushrooms
Se KAWA, Bagedai e Puman estão mais próximos da fusão entre reggae e música tradicional, os Wild Mushrooms representam uma das vertentes mais experimentais do Yunnan Reggae.
A banda recebeu o nome dos famosos cogumelos silvestres de Yunnan, conhecidos mundialmente pela enorme diversidade encontrada na região. E é essa diversidade que o grupo procura traduzir em sua música.
Misturando reggae, ska, música eletrônica e elementos psicodélicos, os Wild Mushrooms criam uma sonoridade própria dentro da cena local. Faixas como “Animili” e “Hu Ba” passeiam pelas influências das tradições musicais das minorias étnicas da região.
Os instrumentos de sopro típicos de Yunnan e as melodias vocais inspiradas nas culturas locais aparecem lado a lado com as levadas que remetem ao ska.
Uma identidade própria
O que une os artistas acima e outros que se dedicam ao reggae na China é a capacidade de reinterpretar o gênero caribenho com base em suas experiências profundamente locais.
Em vez de reproduzir modelos estrangeiros, os artistas utilizaram a música jamaicana como ponto de partida para contar histórias sobre sua própria ancestralidade, território, memória e identidade cultural. O reggae, para eles, é uma ferramenta de valorização das tradições étnicas de Yunnan e de afirmação.
A história do Yunnan Reggae mostra o quanto a força do reggae nunca esteve limitada à sua origem geográfica. Dos guetos da Jamaica, o gênero encontrou também novas vozes nas montanhas do sudoeste da China, onde continua sendo recriado em meio a uma das cenas musicais mais interessantes e inesperadas do reggae contemporâneo.
.

Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
