Conheça o Notting Hill Carnival de Londres, que há 60 anos celebra a cultura e a história do Caribe (e do Brasil também)

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Sound systems no Notting Hill Carnival nos anos 1970 - PYMCA/Avalon

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Para o público brasileiro, a palavra “Carnaval” remete imediatamente a uma das maiores manifestações culturais do nosso país. Mas, do outro lado do Atlântico, Londres também abriga uma celebração que transforma as ruas em um grande encontro de música, dança e cultura: o Notting Hill Carnival, que reúne em três dias de celebração mais de 30 sound systems, Brazilian bands, calypso, soca, e muito mais.

Considerado o maior evento de rua da Europa e um dos maiores carnavais do mundo, sua história está profundamente ligada à chegada de comunidades caribenhas ao Reino Unido, às tensões raciais que marcaram a Londres do pós-guerra e à organização comunitária como resistência e afirmação cultural.

Em 2026, o Notting Hill Carnival completa 60 anos. Ao longo de seis décadas, a celebração cresceu e passou a reunir diferentes comunidades, manifestações artísticas e expressões musicais. Mas suas raízes permanecem ligadas à cultura caribenha e às pessoas que ajudaram a transformar a identidade da Londres contemporânea.


Mais do que uma grande festa popular, sua história é marcada por personagens fundamentais, episódios de violência racial, ativismo e iniciativas comunitárias.

Um crime que marcou a comunidade no final dos anos 1950

Kelso Cochrane era um carpinteiro de 32 anos, nascido em Antígua, aspirante a advogado e morador de Notting Hill em uma época de alta tensão racial. Ele morreu após um ataque motivado por racismo na Southam Street, perto da Golborne Road, em Notting Hill, em 17 de maio de 1959. Hoje, uma placa azul marca o local.

Seu assassinato teve um enorme impacto nas relações raciais. Estima-se que mais de 1.200 pessoas compareceram ao seu funeral, muitas delas para demonstrar solidariedade e desafiar o racismo que existia na comunidade local.

Os ativistas locais consideraram que a investigação sobre o assassinato havia sido conduzida de forma complacente e começaram a circular informações de que a polícia teria encoberto o caso, que permanece sem solução até hoje.

Antes mesmo da morte de Cochrane, diversas iniciativas já buscavam amenizar as tensões raciais na região de Notting Hill. Entre elas estava uma pequena festa de rua para crianças, organizada pela moradora local e ativista comunitária Rhaune Laslett (foto abaixo).

Sobre sua comunidade e o evento, Laslett teria dito:

“Sentíamos que, embora pessoas das Índias Ocidentais, africanas, irlandesas e de muitas outras nacionalidades vivessem todas em uma área muito congestionada, havia muito pouca comunicação entre nós. Se conseguirmos contagiá-las com o desejo de participar, isso só poderá trazer bons resultados.”

Foi essa pequena festa comunitária de rua para crianças, realizada em meados dos anos 1960, que se transformaria no que hoje conhecemos como o Notting Hill Carnival.

As sementes do Carnaval Caribenho em Londres

Para compreender o nascimento do Carnaval de Notting Hill, é preciso voltar a 1959. Naquele ano, Claudia Jones (foto abaixo), ativista de direitos humanos nascida em Trinidad e radicada em Londres, realizou um Caribbean Carnival, ou Carnaval Caribenho, em espaço fechado, no St Pancras Town Hall, com transmissão da BBC. Por essa iniciativa, Claudia Jones é amplamente reconhecida como uma das responsáveis por plantar as sementes do Carnaval no Reino Unido.

O interesse pelo Carnaval Caribenho realizado em espaços fechados também foi alimentado pelocasal trinidadiano Edric e Pearl Connor. Ao lado de diversos parceiros, incluindo o West Indian Gazette, jornal fundado por Claudia Jones, eles passaram a promover eventos em espaços e salões espalhados por Londres durante os anos 1960.

Quando o Carnaval chegou às ruas

Em 1966, o primeiro festival ao ar livre aconteceu nas ruas de Notting Hill, quando Rhaune Laslett organizou um evento para as crianças da comunidade. Como uma ativista comunitária já estabelecida, com histórico de atuação para enfrentar e amenizar as tensões interculturais na região desde os violentos conflitos raciais da década de 1950, ela decidiu incluir os moradores locais de origem caribenha no evento.

Para isso, Rhaune convidou o renomado músico de steel pan Russell Henderson (foto abaixo), acompanhado pelos integrantes de sua banda: Sterling Betancourt, Vernon “Fellows” Williams, Fitzroy Coleman e Ralph Cherry. A banda já era popular entre a comunidade caribenha e participava regularmente dos eventos de Carnaval realizados em espaços fechados.

Como Laslett havia planejado, muitos moradores caribenhos da região compareceram. Sua visão de uma celebração comunitária multicultural e ao ar livre foi um enorme sucesso.

No primeiro evento, a steelband de Henderson percorreu a Portobello Road, enquanto um grupo cada vez maior de moradores se reunia espontaneamente e dançava nas ruas ao som do pan. Assim, nascia oficialmente o primeiro Notting Hill Carnival.

O que são os steel pans?

Para o leitor brasileiro, vale uma breve explicação: o steel pan é um instrumento musical associado a Trinidad e Tobago e uma das expressões sonoras mais características da cultura caribenha.

Também chamado de steel drum, ele é produzido a partir de tambores de metal e pode executar melodias, harmonias e ritmos. As steelbands, grupos formados por vários músicos tocando esses instrumentos, ocupam um lugar fundamental na história do Carnaval de Notting Hill.

Sound systems: da Jamaica para as ruas de Londres

Outra presença fundamental para entender o Carnaval de Notting Hill são os sound systems, que fazem parte do Notting Hill Carnival desde os seus primeiros anos. Antes mesmo de serem oficialmente incorporados ao evento, alguns dos principais nomes da cultura sound system já levavam seus equipamentos para as ruas do bairro.

Entre eles estavam Duke Vin e Count Suckle, dois importantes pioneiros da cultura sound system no Reino Unido. De origem jamaicana, ambos ajudaram a estabelecer em Londres uma tradição musical diretamente influenciada pela cultura dos sound systems da Jamaica.

Os dois tinham seus equipamentos instalados na região de Ladbroke Grove, próxima a Notting Hill, e por isso passaram a levar seus sistemas de som para as ruas de maneira não oficial durante os primeiros anos do Carnaval. Essas iniciativas ajudaram a aproximar a cultura dos sound systems da comunidade caribenha que vivia na região e contribuíram para transformar o som amplificado em uma das características marcantes do evento.

Em 1973, os sound systems foram oficialmente convidados a integrar o Notting Hill Carnival como sua quinta categoria, por Leslie Palmer, que na época fazia parte do comitê organizador do Carnaval.

PYMCA/Avalon

Como o maior evento de rua da Europa, o Notting Hill Carnival ofereceu aos sound systems uma enorme plataforma para apresentar essa manifestação.

Os sound systems em Notting Hill apresentam diferentes formas de música gravada. Alguns são especializados em um único estilo, como house, música latina, hardcore, roots reggae, rocksteady e ska. Outros transitam por diferentes vertentes da música dançante. Hoje, mais de 30 sistemas se instalam nas ruas do bairro durante o Carnaval, incluindo nomes tradicionais como Aba Shanti-I, Channel One Sound System, King Tubby´s, Saxon Sound System e Volcano Sound.

A Batalha de Notting Hill

O crescimento do Carnaval aconteceu em meio a um período de forte tensão racial em Londres. Em North Kensington, essa tensão também se manifestava na relação entre a comunidade negra e a polícia. Um dos principais símbolos desse conflito era o Mangrove, restaurante de propriedade de Frank Crichlow, na All Saints Road, que havia se tornado ponto de encontro de artistas, intelectuais e ativistas negros.

O estabelecimento foi alvo de repetidas batidas policiais, que seus frequentadores e apoiadores consideravam motivadas por racismo. As ações culminaram, em 1970, na prisão e no julgamento de nove ativistas negros, no episódio que ficou conhecido como Mangrove Nine. O julgamento terminou em 1971 com a absolvição dos nove réus das principais acusações, e o juiz reconheceu a existência de preconceito racial dentro da Polícia Metropolitana – a primeira vez que isso ocorreu em um tribunal britânico.

Photo by Evening Standard/Hulton Archive/Getty images

Poucos anos depois, em 1976, a tensão chegou ao seu ponto mais crítico durante o próprio Carnaval. Na segunda-feira do feriado bancário, cerca de 1.600 policiais foram destacados para o evento, oito vezes mais do que no ano anterior. No fim da tarde, uma tentativa de prisão por suspeita de furto perto da Portobello Road desencadeou confrontos entre policiais e jovens negros que participavam do Carnaval. Mais de 300 policiais ficaram feridos, 35 veículos policiais foram danificados, cerca de 60 foliões foram levados ao hospital e 60 pessoas foram presas.

O episódio, que ficou conhecido como “Battle of Notting Hill”, provocou debates sobre a continuidade do Carnaval. Parte da imprensa e políticos defenderam sua proibição ou transferência para outra região de Londres. O Carnaval, porém, sobreviveu e continuou crescendo nos anos seguintes.

A partir daquele momento, tornou-se cada vez mais difícil separar a história do Notting Hill Carnival das disputas sociais e raciais que marcaram a comunidade de North Kensington. A celebração, para muitos de seus participantes, também significava afirmar a presença e a cultura de comunidades negras e caribenhas em Londres.

Reggae, punk, calypso, soca e muito mais

O Notting Hill Carnival também conta com apresentações ao vivo. Os primeiros palcos foram organizados por Wilf Walker, em 1979, e apresentavam principalmente bandas de reggae e punk. Entre os artistas que se apresentaram nos primeiros palcos organizados por Walker estavam talentos em ascensão como Aswad e Eddie Grant, que mais tarde se tornariam dois dos maiores nomes da música britânica.

Nos anos 1990, lendas do hip-hop como Jay-Z, Lil’ Kim e Busta Rhymes se apresentaram em um palco do NHC. Mais recentemente, artistas como Stormzy, Wiley, Craig David, Giggs, Major Lazer, Mr Eazi e Stefflon Don também passaram pelos palcos do Carnaval.

Em 2018, foi lançado o Wilf Walker Community Stage, no Horniman Park, um palco dedicado a oferecer espaço para talentos emergentes, predominantemente vindos da comunidade local.

Os palcos e os “trucks” ou carros alegóricos do NHC (que lembram nossos trios elétricos) também recebem apresentações de artistas de calypso radicados no Reino Unido, como Alexander D Great e De Admiral, além de nomes internacionalmente conhecidos da soca, como Bunji Garlin e Machel Montano.

A presença brasileira no Notting Hill Carnival

Para o público brasileiro, talvez uma das conexões mais interessantes com o Notting Hill Carnival seja justamente a presença do Brasil em seu desfile.

As chamadas Brazilian Bands fazem parte oficialmente do evento desde 1984, quando foram introduzidas pela London School of Samba, a primeira e mais antiga escola de samba do Reino Unido que se apresenta anualmente no Carnaval com baterias e dançarinos.

As Brazilian Bands tornaram-se uma presença muito popular ao longo do percurso do desfile. Com coreografias, performances de dança e uma bateria ao vivo enérgica e sincronizada, elas encantam o público e acrescentam diversidade ao trajeto do Carnaval.

A primeira escola de samba do Reino Unido foi fundada por um grupo de músicos profissionais vindos da África do Sul, do Brasil e de outros países da América Latina. De exilados políticos a imigrantes, todos compartilhavam experiências ligadas a turbulências políticas e ditaduras. Encontraram uma conexão comum no som contagiante e empolgante do samba e na liberdade e libertação que essa música representava.

Alan Hayman, João Bosco de Oliveira, Pato Fuentes, Carlos Fuentes, German Santana e os britânicos Dave Patman, Dave Bitelli e Gerry Hunt foram os membros fundadores do grupo. A própria escola reunia, desde o início, brasileiros, chilenos e colombianos.

Em 2018, os organizadores do Notting Hill Carnival renomearam a “categoria samba”, introduzida pela CAMF em 2004, para Brazilian Bands, um título considerado mais apropriado pela organização. Hoje, as Brazilian Bands representam a mesma riqueza e diversidade do próprio Brasil, apresentando sambas-enredo, samba reggae e maracatu.

E o Carnaval de Notting Hill já se encontrou recentemente com o Carnaval de Salvador em território brasileiro. As conexões aconteceram em 2024, com Psirico no festival Afropunk, e em 2026, quando artistas londrinos desfilaram no trio elétrico Navio Pirata, do BaianaSystem, no circuito Campo Grande.

Com mais de um milhão de visitantes durante o feriado bancário de agosto, o Carnaval de Notting Hill, em Londres, é um dos maiores eventos anuais de artes do planeta e considerado o maior evento de rua da Europa. A programação oficial acontece de sábado a segunda-feira (em 2026,  entre os dias 29 e 31 de agosto).

Dos steel pans aos sound systems, do calypso e da soca ao reggae, do ska e do rocksteady ao samba, ao samba-reggae e ao maracatu, o Notting Hill Carnival reúne uma diversidade sonora que ajuda a contar a história das comunidades que construíram e continuam construindo a Londres contemporânea.

 

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