Reggae na Líbia: uma conversa entre o sul do mapa
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Este artigo, por Miguel Lafaurie, é resultado da oficina de jornalismo cultural realizada pela Fundación La Comadre (Colômbia) com Groovin Mood.
Em abril deste ano, realizamos, a convite da Fundación La Comadre, da Colômbia, como parte do projeto Escuela de Agitadorxs, uma oficina de jornalismo para interessadas em cultura e música. Neste artigo, que é resultado da oficina – e que você encontra também em espanhol logo a seguir – Miguel Lafaurie fala da conexão sonora entre Caribe e Líbia.
Introdução: One Love, o Reggae se Globaliza
O reggae nunca foi um gênero musical no vazio; nasceu como uma linguagem de emancipação que, ao se globalizar, encontrou terreno fértil nos lugares mais inesperados. Na Líbia de Muammar Gaddafi, um território marcado por forte censura cultural e desconfiança em relação ao Ocidente, as juventudes encontraram no baixo e no ritmo do skank uma forma de expressão, identidade e um eco de liberdade. O som jamaicano passou a dialogar com ritmos tradicionais líbios e se transformou em uma ferramenta de resistência para um setor da população que buscava sua própria voz. Algumas das influências mais fortes vieram de Bob Marley, Peter Tosh e Lucky Dube.
Al-Sur: Ana e a Geopolítica do Ritmo
Ana Franco, também conhecida como Frikanalish, DJ, filósofa e internacionalista, nos convida por meio de sua transmissão radiofônica Geo-Setlists: Vecindarios Musicales a conhecer essa interessante ressonância entre o Caribe e a Líbia. Coautora do livro Gaza Desde Muchas Franjas, Ana é uma pesquisadora brilhante e apaixonada que conseguiu levar a geopolítica para a pista de dança.

Seu projeto, Al-Sur, é um convite para nos despirmos de preconceitos e nos reconhecermos em músicas distantes que nos unem e nos movem ao longo do Sul Global. O projeto nasce cofundado e co-comandado por Calixta Domitila, também DJ e designer gráfica. Juntas, elas propõem um espaço onde as sensibilidades do sul entram em diálogo por meio da arte, um verdadeiro “encontro de Sures”.
Conversar com Ana é entender que o Sul Global não é apenas uma posição geográfica, mas um espaço de construção coletiva entre regiões historicamente saqueadas que hoje começam a se reconhecer mutuamente a partir de suas semelhanças, diferenças e dores. A música e a dança são muito mais do que lazer ou entretenimento: são aquilo que nos sustenta, são sobrevivência.
A Colômbia é um país profundamente marcado pela diversidade de migrações, entre elas as migrações árabes, principalmente vindas do Líbano, Síria e Palestina. Esses imigrantes trouxeram consigo ricas tradições que hoje se refletem fortemente na Costa Caribenha colombiana e em todo o país.
A trajetória de Frikanalish é marcada, em muitos sentidos, por sua proximidade pessoal e fascínio pelo mundo árabe. Embora Ana seja de Bogotá, o contato com pessoas da Líbia, do Norte da África e da Ásia Ocidental influenciou profundamente sua formação. A partir desse contexto, ela nos convida a olhar para os bairros musicais de nossos vizinhos do sul.
Geo-Setlists: Vecindarios Musicales na Radio Estruendo Tinansuca
A materialização dessa ponte sonora aconteceu em 29 de abril de 2026 por meio de uma transmissão na Radio Estruendo Tinansuca. Nesse espaço de rádio comunitária e autogerida, Ana apresentou a primeira edição de Geo-Setlists: Vecindarios Musicales, iniciando com um episódio dedicado ao reggae na Líbia. O programa vai ao ar quinzenalmente às quartas-feiras — já existe uma segunda sessão dedicada à Palestina, transmitida em 13 de maio — e busca fazer com que aquilo que parece “exótico” se torne familiar na imaginação do ouvinte: algo próximo, acessível, possível de explorar sem deixar de lado seu contexto único.
No programa, Ana fala sobre esse reggae líbio que surge no fim dos anos 1970 em um contexto hostil à sua difusão. Torna-se então importante compreender uma camada adicional da mensagem de resistência do reggae: a maneira como essa música foi disseminada e preservada por meio de fitas cassete passadas de mão em mão. Justamente por isso, trata-se de uma música que permaneceu invisibilizada durante muito tempo e sobre a qual ainda é difícil pesquisar em profundidade. O reggae líbio carrega elementos familiares do reggae tradicional, mas adiciona sua própria identidade, sendo cantado majoritariamente em árabe e incorporando instrumentos locais.
O Mapa Sonoro: Reggae da Líbia
Convidamos o leitor a mergulhar nessa experiência por meio da gravação disponível no SoundCloud (https://soundcloud.com/frikanalish/geosetlists-vecindarios), onde é possível percorrer um bairro sonoro que desafia fronteiras. A seguir, apresentamos a setlist proposta por Frikanalish em sua transmissão:
Ahmed Fakroun – Nisyan (anos 1990)
Ahmed Ben Ali – Ana Middae (2008)
Ibrahim Hesnawi – Never Understand (anos 1980)
Cheb Ziram/Gom3a Qalyah – Safi Albak (anos 1980?)
Ahmed Ben Ali – Subhana (2008)
Fawzy El-Mazdawy – La Tqoly Maktoob (anos 2000?)
Libian Reggae Autotune – Arabe Reggae (anos 2000?)
Shahd – Erhal Keef Alsham Tgheeb (anos 2000?)
Ahmed Fakroun – Falah (1977)
Com essa seleção, Ana nos oferece um percurso histórico mediado pelo reggae produzido na Líbia. Meu favorito pessoal é Safi Albak, de Cheb Ziram; o solo de guitarra simplesmente explodiu minha cabeça! Para quem quiser se aprofundar, Ana destaca três artistas fundamentais para explorar o reggae líbio:

Ibrahim Hesnawi: figura fundadora e essencial para compreender as raízes do gênero no país.
Ahmed Ben Ali: indispensável para entender a evolução e o estilo local.
Shahd: uma rara voz feminina nesse contexto, peça-chave da cena contemporânea.
Também merece destaque Ahmed Fakroun que, embora explore um espectro musical muito mais amplo, utiliza ritmos do reggae em várias de suas obras.
Habibi Funk Records: Conservação e Difusão
Como mencionado anteriormente, grande parte dessa música circulou em uma indústria marginal, operando nas sombras. Em muitos aspectos, isso ecoa formas iniciais de troca musical nos circuitos de sound system da Jamaica, com dubplates e periferias picoteras da Colômbia. Uma das maneiras pelas quais o reggae líbio chegou até nós foi principalmente através de viajantes que carregavam consigo fitas cassete, difundindo o gênero para fora da Líbia.
De especial interesse está a Habibi Funk Records, selo fundado em 2015 pelos alemães Jannis Stürtz e Malte Kraus, cuja missão é reeditar e preservar músicas produzidas entre as décadas de 1960 e 1980 no mundo árabe. A ideia surgiu quando Stürtz visitou o Marrocos e descobriu uma riqueza musical que o marcou profundamente. Ao perceber que aquelas gravações não estavam facilmente disponíveis, decidiu rastrear os criadores originais — ou suas famílias — para compartilhar essa música com o mundo.
Graças a essa iniciativa, grande parte da música da época — funk, soul, psicodelia, jazz, entre outros gêneros — foi preservada na melhor qualidade possível. Em alguns casos, artistas puderam inclusive regravar suas obras para disponibilizá-las em versões de maior fidelidade sonora. Esse trabalho tem sido fundamental não apenas para a preservação e difusão do reggae líbio, mas também de muitas outras músicas influentes do Norte da África e do mundo árabe. O selo também oferece uma plataforma para acessar essas obras em formatos digitais e em vinil.
Conclusão: Uma Mensagem para os Sures
Este texto é uma humilde ponte entre os sures, unidos através do Caribe jamaicano em nossas explorações musicais. É um lembrete de que, em um ecossistema cultural vivo e fora do mainstream, a música continua sendo nossa melhor ferramenta para narrar nossas cenas locais e também conectar o global com ética e responsabilidade. Para conversar, sonhar e imaginar outros futuros possíveis.
(Versão em espanhol)
Introducción: One Love, El Reggae se Globaliza
El Reggae nunca fue un género musical en el vacío; nació como un lenguaje de emancipación que al globalizarse encontró terreno fértil en los lugares más insospechados. En la Libia de Muammar Gaddafi, un territorio marcado por una fuerte censura cultural y la desconfianza hacia lo occidental; las juventudes encontraron en el bajo y el ritmo del skank una forma de expresión, identidad y un eco de libertad. El sonido jamaiquino se reconoce familiar con ritmos libios tradicionales y se convierte en una herramienta de resistencia para un sector de la población que buscaba su propia voz. Algunas de las más fuertes influencias provienen de Bob Marley, Peter Tosh y Lucky Dube.
Al-Sur: Ana y la Geopolítica del Ritmo
Ana Franco AKA Frikanalish (https://www.instagram.com/frikanalish/), DJ, filósofa e internacionalista nos invita con su transmisión radial Geo-Setlists: Vecindarios Musicales a conocer de esta interesante resonancia entre el Caribe y Libia. Coautora del libro Gaza Desde Muchas Franjas, Ana es una investigadora brillante y apasionada que ha logrado aterrizar la geopolítica en la pista de baile.
Su proyecto, Al-Sur (https://www.somosal-sur.org/al-sur), es una invitación a despojarse de prejuicios y reconocerse en músicas lejanas que nos unen y nos mueven a lo largo del Sur Global. Nace co-fundado y co-liderado con Calixta Domitila (https://www.instagram.com/bitacoradecalixta/), también DJ y diseñadora gráfica. Entre las dos proponen un lugar donde se ponen a conversar las sensibilidades del sur a través del arte, un “junte de Sures”. Hablar con Ana es entender que el Sur Global no es solo una posición geográfica, sino un espacio de construcción colectiva entre regiones históricamente saqueadas que hoy empiezan a reconocerse unas a otras desde sus similitudes, sus diferencias y sus dolores. La música y el baile son mucho más que ocio o entretenimiento, son lo que nos sostiene, son supervivencia.
Colombia es un país que se ha nutrido ricamente de diversidad de migraciones entre las cuales se encuentran migraciones árabes, principalmente de Líbano, Siria y Palestina. Estos inmigrantes trajeron consigo ricas tradiciones que hoy se ven marcadamente en la Costa Caribe colombiana y en todo el país. La trayectoria de Frikanalish está marcada en muchos sentidos por su cercanía personal y la fascinación por el mundo árabe. Si bien Ana proviene de Bogotá, el contacto con personas de Libia, el Norte de África y Asia Occidental han influido grandemente en ella. Desde este contexto nos invita a mirar los vecindarios de nuestros vecinos del sur.
Geo-Setlists: Vecindarios Musicales en Radio Estruendo Tinansuca
La materialización de este puente sonoro ocurrió el pasado 29 de Abril de 2026 a través de una emisión en Radio Estruendo Tinansuca ((https://www.instagram.com/radioestruendo_tinansuca/). En este espacio de radio comunitaria y autogestionada, Ana presentó la primera entrega de Geo-Setlists: Vecindarios Musicales (https://soundcloud.com/frikanalish/geosetlists-vecindarios) comenzando con un episodio sobre la música reggae en Libia. Este programa se emite en vivo quincenalmente los Miércoles (ya hay disponible una segunda sesión dedicada a Palestina emitida el 13 de Mayo) y busca que lo “exótico” aterrice en la imaginación del oyente como algo familiar, cercano, que se puede explorar sin dejar de lado su contexto único.
Nos cuenta en su programa acerca de este reggae libio que nace a finales de los 70s en un contexto hostil para la difusión. Se vuelve entonces importante entender una capa añadida al mensaje de resistencia del reggae en la manera en la que esta música se difunde y preserva a través de cassettes, de mano en mano. Precisamente por este motivo es una música que por mucho tiempo pasó desapercibida y de la cuál es difícil investigar más a fondo. El reggae libio contiene elementos familiares del reggae pero añade su propia sazón siendo cantado principalmente en árabe y añadiendo instrumentos autóctonos
El Mapa Sonoro: Reggae de Libia
Invitamos al lector a sumergirse en esta experiencia a través de la grabación en SoundCloud (https://soundcloud.com/frikanalish/geosetlists-vecindarios), donde podrán recorrer un vecindario sonoro que desafía fronteras. A continuación presentamos el set-list que nos propone Frikanalish en su emisión:
- Ahmed Fakroun – Nisyan (90s)
- Ahmed Ben Ali – Ana Middae (2008)
- Ibrahim Hesnawi – Never Understand (80s)
- Cheb Ziram/Gom3a Qalyah – Safi Albak (80s?)
- Ahmed Ben Ali – Subhana (2008)
- Fawzy El-Mazdawy – La Tqoly Maktoob (2000s?)
- Libian Reggae Autotune – Arabe Reggae (2000s?)
- Shahd – Erhal Keef Alsham Tgheeb (2000s?)
- Ahmed Fakroun – Falah (1977)
Con este setlist, Ana nos da un recorrido histórico mediado por el gusto del reggae de Libia. Mi personal favorito es Safi Albak de Cheb Ziram, ¡el solo de guitarra me voló la cabeza! Para quienes deseen profundizar, Ana destaca tres artistas fundamentales desde los cuales explorar el reggae libio:
- Ibrahim Hesnawi: Figura fundadora y esencial para comprender la raíz del género en el país.
- Ahmed Ben Ali: Imprescindible para entender la evolución y el estilo local.
- Shahd: Una rara voz femenina en este contexto, clave en la escena contemporánea.
Mención además merece Ahmed Fakroun, quien, aunque explora un espectro musical mucho más amplio, también utiliza ritmos del reggae en varias de sus obras.
Habibi Funk Records: Conservación y Difusión
Como se mencionó anteriormente, mucha de esta música se difundió en una industria que operaba al margen, desde las sombras. De muchas formas esto hace eco a formas tempranas de intercambio musical en los circuitos Soundsystem de Jamaica con los dubplates y las periferias picoteras de Colombia. Una de las formas en las que el reggae libio llega a nosotros es principalmente a través de viajeros que llevaron consigo cassettes, difundiendo el género fuera de Libia.
De muy especial interés está Habibi Funk Records (https://www.instagram.com/habibifunk/), un sello discográfico fundado en 2015 por el alemán Jannis Stürtz y Malte Kraus que ha convertido en su misión reeditar y preservar la música de los 60’s a los 80’s del mundo árabe. La idea nace cuando Stürtz visita Marruecos y descubre una riqueza musical que lo marca. Al darse cuenta de que la música de esa época no estaba fácilmente disponible se dispone a rastrear a los creadores originales o a sus familias con el fin de difundir esa música al mundo.
Gracias a esta iniciativa, mucha de la música de la época, funk, soul, psicodelia, jazz, entre otros, se ha preservado en la calidad que se ha podido rescatar e incluso muchos artistas han podido hacer re-grabaciones de su música para disponer con versiones en mayor calidad. Esto ha sido importante en la conservación y difusión no sólo del reggae libio sino también mucha música influyente de otros países árabes del Norte de África. Presentan también una plataforma desde la cuál poder acceder a esta música en formatos digitales y de vinilo.
Conclusión: Un Mensaje para los Sures
Esta pieza es un humilde puente entre los sures, unidos a través del Caribe jamaiquino en nuestras exploraciones musicales. Es un recordatorio de que, en un ecosistema cultural vivo y fuera del mainstream, la música sigue siendo nuestra mejor herramienta para narrar nuestras escenas locales y también conectar la globalidad con ética y responsabilidad. Para conversar, soñar e imaginar otros futuros posibles.

Dani Pimenta é jornalista musical, DJ e produtora cultural. Está sempre atenta às tendências e novidades da música independente mundial. É fundadora e editora do Groovin Mood.
